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OPINIÃO

Cresce o sonho ondulando na bandeira: Quando o hino pede mais do que vozes

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O hino nacional não é apenas canto. É um espelho onde o país se vê, às vezes com orgulho, outras com vergonha, quase sempre com uma saudade do que ainda não se realizou. “Pátria Amada” soa em cerimónias, em escolas, em estádios, mas devia ecoar, primeiro, nas entranhas da vida do povo. Porque cada verso dele foi escrito com a tinta da luta. E cada nota musical ainda pede, como se fosse oração, que a pátria cresça no coração de todos. Que o sonho ondulando na bandeira não seja apenas estética, mas promessa cumprida.

Quando se canta “na memória de África e do mundo”, não se fala só de passado. Fala-se de presença. De responsabilidade. Moçambique não é ilha, nem pode viver de costas viradas para os outros. Está inscrito no mapa da dor e da esperança do continente. É parte de uma história de espoliação e de libertação. E é nesse fio da história que se deve perguntar: estamos a ser memória viva ou arquivo esquecido? Quando o mundo nos olha, vê o quê? Um povo resiliente, sim. Mas também um povo ainda preso à dependência económica, a ciclos de pobreza, à corrupção institucionalizada que mina qualquer sonho colectivo.

“A glória do passado” não se repete no hino por descuido. Repete-se como alerta. Porque o passado foi construído com coragem, a mesma coragem que hoje parece faltar. A glória não está garantida. Precisa ser regada com justiça. Com verdade. E sobretudo com humildade. A glória herdada pode morrer se não for continuada com actos. E não há maior traição aos que tombaram do que deixar a bandeira ser símbolo decorativo em mãos manchadas de impunidade.

A força do povo “do Rovuma ao Maputo, do Índico ao Zumbo” é exaltada como unidade. Mas a realidade, muitas vezes, racha esse mapa em mil desigualdades. Os centros e os extremos vivem em velocidades diferentes. Enquanto uns discutem em plenários refrigerados, outros caminham horas por uma consulta médica ou para buscar água. A unidade proclamada no hino não se compra com discursos. Constrói-se com equidade. E a equidade ainda é um sonho que não desceu à terra. Ou seja, não se encarnou.

O hino diz “todos por um, desafiando canhões”, mas hoje o inimigo veste gravata. Está nas instituições que fecham portas aos pobres. Está nos concursos públicos viciados, nos hospitais sem reagentes, nas escolas com professores desmotivados. A luta agora é contra as armas invisíveis da indiferença. Da mentira. Do saque disfarçado em projectos. E para esta luta, não basta cantar. É preciso agir. E agir com sentimento de responsabildiade.

“Viva, viva, Moçambique, nossa terra gloriosa!” Este viva é bonito. É potente. Mas que viva é esse quando tantos morrem sem assistência? Quando o brilho da terra não ilumina as zonas esquecidas? O país será glorioso no dia em que não for preciso sair dele para sonhar. Quando a juventude puder encontrar aqui, não só um chão para nascer, mas também uma razão para ficar.

A bandeira erguida com suor dos heróis não é objecto neutro. É responsabilidade. Não deve ser usada para esconder vergonhas, mas para despertar consciência. Se está nas mãos do povo, como diz o hino, então o povo precisa ter poder real, não apenas votar de cinco em cinco anos, mas participar nas decisões do presente e no desenho do futuro.

“Que o povo unido nunca tema lutar”. Esta é talvez a linha mais atual. Porque a luta continua. Só mudou de cenário. Lutar agora é exigir transparência. É defender os bens públicos. É recusar a normalização da pobreza como destino. É cultivar um patriotismo que não se ajoelha aos interesses privados, nem se resigna às migalhas de promessas.

Cresce o sonho ondulando na bandeira. Mas o sonho, por si só, não basta. Tem que encontrar chão. Tem que virar pão. Tem que virar políticas. Tem que se ver nos rostos do povo. Porque hino bonito sem vida digna é só melodia vazia. E já estamos saturados de melodias que só nos embelezam a alma enquanto sangra o coração.

Que este canto que nos une continue a ser bússola, não apenas lembrança. Que nos ensine que paz não é silêncio, mas justiça. Que liberdade não é só ausência de guerra, mas presença de oportunidades. E que uma pátria amada só pode ser gloriosa quando o povo é amado de volta, com políticas sérias, com dignidade para todos, do Rovuma ao Maputo. E mais não disse!

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