ECONOMIA
Crédito usado para consumo não combate a pobreza, alerta economista
O economista moçambicano Jorge Serrão Conhaque João defende que o microcrédito não produz impacto real no combate à pobreza quando é utilizado para consumo imediato ou para o pagamento de dívidas anteriores, em vez de ser aplicado em actividades produtivas capazes de gerar rendimento sustentável.
Segundo o especialista, nessas circunstâncias o empréstimo deixa de funcionar como instrumento de inclusão económica e passa a alimentar um ciclo de endividamento, no qual o beneficiário recorre sucessivamente a novos créditos apenas para cumprir obrigações passadas. “Quando o crédito não aumenta a capacidade produtiva do negócio e não gera rendimento adicional, ele não reduz a pobreza; pelo contrário, tende a aprofundar a vulnerabilidade financeira”, sustenta, sublinhando que este padrão é recorrente entre micro-negócios informais com rendimentos instáveis.
O economista explica ainda que o microcrédito se transforma num mecanismo de endividamento cíclico quando “o custo do crédito supera a capacidade real de geração de rendimento do negócio, o empréstimo é usado para consumo imediato ou para saldar dívidas anteriores, não existe período de carência nem flexibilidade em caso de choques económicos, e o beneficiário recorre sucessivamente a novos créditos para cumprir obrigações passadas”. Nessas condições, alerta, o crédito deixa de promover inclusão e passa a reproduzir a vulnerabilidade financeira, agravando a pobreza em vez de reduzi-la.
O debate sobre o microcrédito ganha relevância num contexto em que este instrumento é frequentemente apresentado como solução central para o combate à pobreza e à exclusão económica em Moçambique. Em muitas comunidades, o acesso ao crédito é promovido como alternativa ao desemprego e à informalidade, criando a expectativa de que o simples financiamento de pequenos negócios seja suficiente para melhorar, de forma duradoura, as condições de vida das famílias.
No entanto, Jorge Serrão Conhaque João considera que esta narrativa ignora a realidade concreta de muitos beneficiários, para quem o crédito funciona apenas como “um mecanismo de alívio temporário de liquidez”, sem se converter em aumento consistente da produtividade ou em fortalecimento duradouro dos negócios. O resultado, segundo explica, é a sobrevivência precária de empreendimentos com rendimentos instáveis e forte dependência de novos empréstimos.
É neste quadro que o tema se impõe como assunto de interesse público, ao evidenciar que o problema não reside apenas no acesso ao crédito, mas na forma como ele é concebido, aplicado e acompanhado. Para o economista, sem reformas profundas — incluindo revisão das taxas de juro, prazos de pagamento mais longos, educação financeira obrigatória e acompanhamento técnico contínuo — o microcrédito continuará a ser “uma política bem-intencionada, mas com impactos limitados e, em alguns casos, socialmente contraproducentes”. Assane Júnior
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