OPINIÃO
Contratação da Alvarez & Marsal
A recente contratação da Alvarez & Marsal para apoiar processos de reestruturação e reforço de credibilidade financeira do Estado moçambicano reacende um debate antigo: estarão realmente esgotadas as capacidades técnicas nacionais para responder às exigências do Fundo Monetário Internacional?
É inegável que a Alvarez & Marsal possui experiência internacional em processos de recuperação financeira, reestruturação institucional e gestão de crises. A empresa construiu reputação em diferentes mercados, actuando em cenários complexos. Contudo, a questão que se impõe não é apenas técnica — é também política, estratégica e até simbólica.
Moçambique dispõe de quadros altamente qualificados, formados em universidades nacionais e estrangeiras, muitos com experiência em instituições multilaterais, banca internacional, auditorias e organismos de supervisão. São economistas, juristas, gestores financeiros e técnicos de controlo interno que conhecem a realidade fiscal, social e produtiva do país. Ignorar este capital humano ou relegá-lo para segundo plano transmite uma mensagem preocupante: a de que só o “selo externo” confere credibilidade.?
O argumento de que a presença de uma consultora internacional ajuda a “restaurar a confiança” junto do FMI levanta uma reflexão mais profunda. A confiança constrói-se com transparência, cumprimento de compromissos, disciplina fiscal e reformas consistentes — não apenas com a contratação de uma marca global. Se as instituições nacionais forem continuamente substituídas por intervenções externas sempre que surge uma crise, como poderão fortalecer-se e amadurecer?
Não se trata de rejeitar cooperação internacional. Pelo contrário, parcerias estratégicas podem ser úteis, sobretudo quando envolvem transferência efectiva de conhecimento e capacitação institucional. O que preocupa é a possível dependência recorrente de soluções importadas, enquanto as capacidades internas permanecem subaproveitadas.
Num contexto em que o país procura afirmar soberania económica e restaurar a confiança dos parceiros externos, talvez o verdadeiro desafio seja equilibrar assistência técnica internacional com valorização do talento nacional. O resgate da credibilidade não deve significar a desvalorização das competências moçambicanas.
Afinal, a pergunta que permanece é simples e legítima: estamos a reforçar as nossas instituições ou apenas a terceirizar a responsabilidade de as reconstruir?
Luís Vasconcelos
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