OPINIÃO
Cem alunos, uma árvore e um sonho
Em muitos pontos de Moçambique, as aulas já não começam com o toque de uma campainha. Começam com um olhar para o céu.
Se o sol permitir. Se a chuva não cair. Se a sombra da árvore for suficiente. Porque, para muitas crianças deste país, a sala de aula deixou de ser uma sala.
Hoje é uma árvore. Debaixo dela, tenta-se aprender o ABC, quando o tempo ajuda. Quando não ajuda, a aula termina antes mesmo de começar. Há escolas onde não existe quadro.
O professor explica no ar, e os alunos tentam guardar as palavras na memória como quem escreve em páginas invisíveis.
E quando existe algo que se parece com uma sala um pedaço de parede aqui, um teto improvisado ali o cenário continua a ser de contraste: centenas de crianças sentadas no chão. Não há carteiras. E aqui começa o paradoxo de um país que precisa urgentemente olhar para si próprio.
Antigamente, ainda se cortava um tronco de árvore para servir de banco improvisado. Hoje até isso se tornou difícil. A madeira saiu. Foi exportada, vendida, embarcada em camiões e contentores. Enquanto isso, nas escolas, faltam até os pedaços de madeira que poderiam servir para uma criança se sentar e aprender a escrever o próprio nome.
E quem paga o preço desta realidade?
Não são os dirigentes que assinam relatórios em gabinetes climatizados.
Não são os que discursam sobre desenvolvimento e progresso. Quem paga o preço é o pai que acorda de madrugada para produzir carvão vegetal, muitas vezes perseguido ou sancionado, apenas para conseguir comprar um caderno para a filha. Um simples caderno.
Porque naquele caderno vive um sonho: o sonho de que aquela menina consiga estudar, aprender e talvez um dia mudar a história da própria família. Mas que futuro pode nascer quando a escola depende da sombra de uma árvore?
Esta realidade não é uma exceção. Ela repete-se em Angoche, Larde, Moma, Mogincual, Nampula, Namialo, Chimoio, Tete, Nacala e em muitos outros cantos deste país.
Há escolas básicas, que vão até à 9ª classe, onde uma única sala tenta acomodar perto de cem crianças. Cem alunos para um professor. Cem sonhos comprimidos no mesmo espaço. Cem futuros que começam o dia sentados no chão. E mesmo assim, antes de começar a aula, muitos ainda fazem uma pequena oração silenciosa: para que o tempo ajude, para que a chuva não venha, para que a aula consiga, pelo menos naquele dia, chegar ao fim. Porque quando a educação de um país depende do humor do clima e da sombra de uma árvore, já não estamos apenas diante de um problema. Estamos diante de um fracasso coletivo. E a pergunta que fica não é para as crianças. É para quem governa:
Até quando o futuro de Moçambique continuará sentado no chão?
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