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OPINIÃO

“Boladas”: o reprovável convertido em traço cultural!

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Conta-se que um Moçambicano visitou um dos Países Nórdicos. Numa cidade, quis apanhar o “metro”, e na entrada havia duas portas. Numa estava escrito “entrada por pagamento” e noutra estava escrito “entrada livre de pagamento”. O Moçambicano estranhou que nesta última não havia ninguém enquanto na porta “entrada por pagamento” estava uma longa bicha de pessoas! Espantado, o Moçambicano pergunta a um dos passageiros da fila: “porquê esta fila onde se paga está cheia, e ali onde se pode entrar de graça não há ninguém? Porquê as pessoas perdem tempo aqui se podem entrar de graça?” O passageiro local responde-lhe “e porquê há-de alguém entrar de graça se pode pagar e assim contribuir para o estado? Aquela porta de livre ingresso é para quem eventualmente se tenha esquecido de levar seu bilhete ou o valor de pagamento”!

Aqui está um exemplo de cidadania interiorizada e tornada “cultura”, um modo de vida livremente aceite e compartilhado!

Na nossa terra, pelo contrário, uma nova cultura nociva está a implantar-se. Aquilo que seria reprovável e eticamente indigno, isso é que prospera e se implanta no nosso convívio comum. Muito recentemente, ficamos escandalizados e indignados com o vídeo que mostra um socorrista nas inundações de Gaza a procurar saber se a pessoa que pedia socorro teria algum dinheiro para pagar o seu resgate. E, contra ele, já se fala em processos disciplinares, distanciamentos, crimes, etc.

Mas a mentalidade e a atitude daquele homem não vieram do vazio nem do planeta Marte. Aquele homem é filho desta sociedade onde tudo funciona a base de “boladas”. Na nossa sociedade predomina um estilo de vida corrompido. Ainda há pouco tempo, a Koxukhuru reportava cobranças astronómicas e favores sexuais nos exames de admissão e nos cursos de formação num instituto de formação de professores em Nacala. Há uma “cultura corrupta” na qual nos movemos e que gerou um novo vocabulário: bolada, costas quentes, furar, refresco, uma mão lava a outra, etc! E, como escrevia Juma Aiuba (in Carta Moçambique, 18/05/20), quando uma pessoa faz uma coisa repetidas vezes, a pessoa se acostuma a fazer essa coisa e, mais tarde, essa prática torna-se hábito!

Nós estamos nos habituando a práticas humana e socialmente nocivas, que acabamos criando uma nova cultura onde a malandragem é tolerada como estrada para a sobrevivência, dando-lhe o nome chique de “bolada”. Tornamos normal que os chapistas devem deixar uma moedinha em cada posto policial pela estrada! Tornamos normal que nossa queixa na esquadra só vai andar se “nyoliharmos” (metermos cunha) o agente que tem o processo! Até para não demorarmos na bicha do banco, temos que “nyolihar” (dar algum) o agente de segurança! Tornamos normal que as parturientes devem “nyolihar” (dar algum) à parteira se quiser receber um tratamento humanizado! Tornamos normal que, para aquele que trabalha, o salário do final do mês não basta: é preciso encontrar, no próprio serviço, formas paralelas para “onyola” (receber algum). O roubo tornou-se “bolada”. O professor que vende notas, isso é sua “bolada”. O pedreiro que desvia alguns quilos de cimento na obra, isso é sua “bolada”. O carpinteiro que enche os bolsos de pregos da obra, isso é sua “bolada”! Os chefes que “comem” o dinheiro público que seria para a construção de estradas e escolas, isso é sua “bolada”! Chefes grandes abandonam escritórios para ir distribuir redes mosquiteiras pelas aldeias, porque não podem perder essa “bolada” de subsídios.

Esta mentalidade de gerirmos a vida vendo em tudo apenas “boladas” não é só daquele pobre socorrista em Gaza. Os funcionários fantasmas são “boladas”.  As hiper-faturações nos negócios do estado são “boladas”. As dívidas ocultas foram “boladas”. Até funcionários das finanças instituíram a “bolada” de 10% aos credores do estado para que sejam pagos! Maior parte das empresas do estado parece serem geridas como “boladas” de indivíduos e grupos! Renovação de BIs e Cartas de condução! Levantamento de certificados nas escolas! Tudo, mas tudo mesmo, é convertível em “bolada”.

É nós, como sociedade, toleramos esta cultura nociva. Os jovens estão crescendo a saber que não se podem meter nas “boladas” dos outros, e que o sucesso financeiro na vida resulta do máximo aproveitamento das “boladas” que forem aparecendo!

A partir do momento em que a “corrupção”  e o consequente modo de vida baseado na “bolada” se cristalizaram desde as classes mais altas até o mundo rural, parece não haver mais nada que funcione com normalidade! Ser governante ou deputado hoje é visto como oportunidade de acesso a um mundo infinito de “boladas”. Ter um passaporte diplomático, ah isso facilita todas as “boladas” de parentes e concubinas! Há um acidente ou avaria de carro na estrada? Os que aparecem a socorrer só vêm uma “bolada”. Já nem o camponês pode deixar seu gergelim secar na machamba. Tudo o que seja colheita madura, vira “bolada” para bandidos.

Temos alguma saída?

Conferências e seminários sobre combate a corrupção sucedem-se. Mas não parece solução suficiente. Introduzem-se cadeiras de ética em todos os cursos universitários. Os estudantes têm “boas notas”, mas não melhora a vida de uma sociedade manietada por “boladas”. Temos leis, supervisões, gabinetes de anticorrupção por todo lado. Algo está melhorando? Nada. E porque? Porque os hábitos adquiridos, tornados cultura, não se combatem apenas com discursos e leis! É preciso uma real mudança cultural séria, uma verdadeira “revolução cultural” que promova a autorregulação dos comportamentos, tal como se viu no episódio dos “Países Nórdicos”.  É preciso uma vontade política determinada. Jesus Cristo não salvou a humanidade apenas com palavras bem estruturadas. Ele teve que morrer na cruz! As lideranças políticas que quiserem inverter o cenário social mergulhado na disputa de boladas, devem estar preparadas para pagar tal ousadia com a própria vida.

Temos que investir na educação transformadora. Mas quem são os atores dessa educação? A família? Parece estar a perder espaço de manobra na atual sociedade, a perder o poder de influência sobre seus filhos. As escolas? Estão muito frágeis: mal equipadas e também elas vulneráveis às “boladas”. As nossas lideranças (as políticas, principalmente) precisam unir-se em um pacto de renovação social, para que o discurso seja acompanhado pelo exemplo. Uma coisa é certa: nosso país está se transformando numa enorme indústria de “boladas”, e isso é um sintoma grave de um estado falhado!

 

 

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