OPINIÃO
A Política da Incoerência: Quando a Hipocrisia Vira Estratégia de Poder
Vivemos uma era em que a incoerência deixou de ser motivo de vergonha e passou a ser estratégia de sobr evivência política. O discurso nobre — aquele que promete justiça, ética e compromisso com o povo — é, muitas vezes, apenas uma cortina de fumaça para a perpetuação de interesses pessoais e de grupos. No centro dessa contradição está um fenômeno psicológico conhecido como dissonância cognitiva, conceito formulado pelo psicólogo Leon Festinger na década de 1950.
A dissonância cognitiva ocorre quando há um conflito entre o que se acredita e o que se pratica. Esse conflito, em situações normais, deveria gerar desconforto e levar à mudança. No entanto, no campo político, esse desconforto é anestesiado por narrativas convenientes e por um sistema que recompensa justamente quem melhor simula virtude enquanto pratica o contrário.
É comum ver políticos defendendo a moralidade pública e, ao mesmo tempo, envolvidos em esquemas de corrupção. Clamam por políticas sociais enquanto aprovam cortes que atingem justamente os mais pobres.
Dizem-se a voz do povo, defensores da democracia, mas silenciam diante de abusos autoritários. Essa incoerência, que deveria ser motivo de escândalo, muitas vezes passa despercebida ou é racionalizada com justificativas conhecidas: “é o jogo político”, “é assim que o sistema funciona”, “faz parte do processo”.
Essa naturalização do comportamento dissonante tem um efeito corrosivo sobre a sociedade. O povo, ao ser constantemente exposto a essa contradição, começa a aceitar a hipocrisia como algo normal. A indignação se esvazia, a confiança nas instituições se dissolve, e o que sobra é um cinismo paralisante. O que antes
causava repulsa agora provoca apenas um encolher de ombros. Estamos diante de um processo de embrute cimento moral, em que a sensibilidade ética vai sendo perdida.
A manutenção de cargos e privilégios passou a justificar qualquer incoerência. Fingir que não se vê o sofrimento do povo tornou-se um meio de proteger interesses. E assim, o discurso político vai se afastando cada vez mais da realidade vivida pela maioria. O abismo entre o que se diz e o que se faz não é mais exceção— é a regra. Contudo, é preciso lembrar que a dissonância cognitiva também pode ser um ponto de partida para mudanças reais. Ela nos alerta quando estamos nos desviando de nossos princípios. Um político que sente desconforto ao trair seus valores ainda tem chance de reconectar-se com sua responsabilidade pública. Uma sociedade que reconhece esse conflito ainda pode exigir coerência, verdade e integridade.
Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada: ou continuamos a normalizar o inaceitável, mergulhados num jogo de aparências, ou enfrentamos o desconforto como motor de transformação. A nulidade intelectual e moral que se insinua na política não é um destino inevitável — é uma escolha coletiva. E é urgente que escolhamos o caminho da coerência, da ética e da coragem.
Francisco Banda, Observador crítico da realidade sociopolítica.
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