OPINIÃO
Video, ergo est! (Vejo, logo existe!)
Um senhor chamado Rene Descartes (1596-1650), que viveu no tempo em que, com Galileu Galileu, estava a implantar-se a investigação científica experimental, propôs-se a encontrar o melhor método que levasse a descobrir verdades de forma inquestionável, uma vez que o longo caminho da organon aristotélica estava então sendo posto em causa pela “revolução copernicana e cientifica”. Dizia ele que, sendo a razão igual em todos os homens, as variações e até a contradição das conclusões a que chegamos sobre o mesmo assunto deve-se aos métodos seguidos. Então é preciso procurar um método seguro. Este novo método deverá iniciar com um posicionamento de dúvida metódica, em relação a todos os conhecimentos até então considerados certos. Mas, havendo a possibilidade de uma dúvida extrema (‘hiperbólica’), essa dúvida só podia ser superada com uma evidência hiperbólica/absoluta. Assim, seguindo esse procedimento metódico, a primeira verdade com absoluta evidência e que não depende de outro pressuposto anteriormente admitido, é o fato da existência do sujeito que duvida, ou seja, a certeza absoluta da existência do sujeito pensante. Por isso, cogito, ergo sum (penso, logo existo!).
Mutatis mutandis, passados quase cinco séculos, vivemos outra vez numa era e numa sociedade em que há novos critérios para apuração da verdade. Com todo o conhecimento que temos da nossa realidade social e política, a sociedade acorda e se escandaliza apenas quando se “vê” algo, pelas televisões e redes sociais. Assim, os “carteis” existem em todos os setores do estado, a partir do momento em que “vemos” um ministro a fazer essa afirmação.
A brutalidade policial existe a partir do momento em que ‘vemos” uma criança baleada num “chapa”.
O “nhonguismo” existe precisamente porque “vimos” um trator para transporte público a custar seis milhões e meio (ele que devia custar um milhão e meio!).
Decretamos a redução drástica dos postos de controlo policial pelas estradas, até a gente “ver” um acidente de chapa superlotado, para a gente se indignar e se questionar como é que, com toda a PT pelas estradas, os chapas superlotadas circulam numa boa!
A corrupção prossegue endémica pois que “vimos” o ministro da agricultura aparentemente metido em conflitos de interesse ao fazer ganhar o concurso a uma empresa na qual ele tem interesses!
Os insurgentes ainda existem pois os “vemos” atacando Chiure e pulando o rio Lúrio para Memba-Erati!
O governo é disfuncional porque “vemos” funcionários fantasmas aos milhares, a percorrer impunemente as ruas dos computadores públicos, ganhando salários e subsídios e décimos terceiros, enquanto os funcionários reais caiem esfomeados a espera duma mensagem que anuncie a ‘entrada’ do magro salário recentemente elevado aos píncaros de 49 meticais!
Num país cujos enfermeiros se debatem com a impossibilidade de ter luvas de trabalho, a dilapidação do erário público prossegue sem tó nem piedade, porque “vemos” a INATRO deslocando a Nampula uma equipa sénior de 8 executivos, apenas para empossar o novo delegado provincial, e, quiçá, dar uma pesseata por alguma praia turística. Sim, estamos de facto sabendo que a honestidade e sobriedade dos titulares de cargos públicos é uma miragem, porque “vemos” um procurador geral em festa esponsal cujo custo dificilmente poderia ser coberto com o seu salário público!
Agora, nosso marasmo económico vai milagrosamente esfumar-se porque “vimos” a ENI anunciando, com pompa e circunstância em jantar celestial, a decisão de investimento para, cumulativamente (diz o nosso presidente de rosto não muito bem convencido!), colocarmos no mercado mundial 7 milhões de toneladas de GNL e tornarmo-nos os 14º produtores mundiais e 4ºs em Africa.
Continuamos na ingenuidade de crer que nosso corpo militar está firme, até o dia em que “vemos” o presidente da república (no conselho coordenador no ministérios da defesa) revelar que há militares que “conhecem o terrorismo apenas pelas redes sociais”; que há militares recebendo subsídios de quem está nas trincheiras quando na verdade nem sequer conhecem o “teatro operacional norte”; que há mais militares nos quarteis de Maputo do que nas trincheiras de Cabo Delgado.
Alimentamos a crença de que as eleições serão mesmo justas e transparentes e o que ganhou nas urnas vai mesmo governar, porque “vemos” intervenientes em conferencias sobre processos eleitorais reconhecendo que o CC fez barbaridades, sobre as quais não há recurso possível!
Nossa boa fee nos fez acreditar que, o dialogo nacional inclusivo, representava uma real mudança de mentalidade e um desejo profundo de mudança que se torne real um estado que não se confunda com o partido! Santa inocência nossa que durou até que vimos um dirigente partidário provincial anunciar sem remorso que o dinheiro da nova versão dos “7 bis” guebuzianos já estava disponível dos distritos!
Estávamos convencidos de que a ceias do ano 2000 e dos anos posteriores nos tinham tornado um país mais prevenido e preparado o suficiente em meios e infraestruturas, até vermos, em 2026, que continuamos mais vulneráveis que nunca: sem linha férrea ligando o país, sem capotagem séria, sem urbanizações resilientes e com a nossa N1 no mesmo esqueleto arquitetado nos tempos idos da colonia! Tal como os Japoneses aprenderam o conter para o mínimo os danos de txunamis que a natureza lhes predeterminou, era altura já de aprendermos de uma vez para todas que estamos e estaremos ab eternum em território vulnerável.
Pensávamos nós que os partidos políticos tinham crescido em ética e moral, até vermos que os tipos, embalados em seus uniformes partidários bem engomadinhos, nem sequer têm a vergonha na cara de usar o infortúnio alheio para se promoverem politicamente. No fundo e afinal, todos eles, dos governantes e aos supostos candidatos a governantes, todos eles aparecem movidos pela mesma lógica predadora do aparecer epidérmico e do um dia chegará a nossa vez!
Uma nova versão do cogito ergo sum cartesiano parece querer instaurar-se sob a fórmula vídeo, ergo est! Se a gente não “vê” o CIP ou o CDD ou Koxukhuru investigando, denunciando, gritando parece que estamos numa boa! Ao que tudo indica, nossa sociedade, e sobretudo nossa arena governativa, parece estar a funcionar em modo avestruz. Enquanto nada se “vê”, estamos felizes no santo fingimento de que estamos na bonança, e que todos os males de que padecemos, simplesmente estão erradicados. Somos fãs da ingenuidade: pensamos que basta mudar o ciclo governativo, toda a mancha negra no lençol social fica eliminada, que os novos governantes são duma estirpe santa, e que os falcões do Sustenta sumiram da circulação pela varinha mágica de um belo discurso lido no dia da tomada de posse. A ingenuidade levamos a pensar que é apenas na LAM que o diabo nhonguista fez morada. E essa ingenuidade dura até o dia em que novo escândalo público se deixe “ver”!
Como é que, a exemplo de Descartes, poderíamos encontrar um indicador ou critério que nos permitisse aferir que nossa sociedade está realmente reencontrando o caminho da vida boa?
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