OPINIÃO
Um jogo de sombras e o peso da velha guarda na nova governação
Moçambique, traz uma atmosfera política densa, onde o silêncio das instituições e o ruído das ruas travam um duelo de exaustão. Sentar-se numa esplanada na Avenida Julius Nyerere maputo , avenida Eduardo mondlane nampula, ou caminhar pelas areias da baia de Pemba, é sentir que o país respira num ritmo de espera. uma espera que já dura décadas, mas que ganhou contornos de urgência.
A governação de Daniel Chapo, herdeiro de uma Frelimo que se recusa a largar o leme, tenta projetar uma imagem de renovação. O discurso é de “combate ao branqueamento” e reconstrução, mas para o moçambicano comum, que conta os meticais para enfrentar a subida do preço do pão e do transporte, a renovação parece mais uma demão de tinta fresca sobre paredes que já conhecem demasiado bem as fissuras do sistema. O novo rosto do poder carrega o peso de um aparelho antigo, e o desafio de Chapo não é apenas governar o país, mas convencer o povo de que ele não é apenas um gestor de vontades alheias.
Do outro lado do tabuleiro, a oposição vive o seu próprio deserto. Se outrora a Renamo e o MDM eram vistos como os guardiões da esperança de alternância, hoje parecem perdidos em labirintos internos. as bases contestam lideranças que se eternizam, as mesmas lideranças que criticam a Frelimo pelo mesmo pecado. A oposição moçambicana padece de uma anemia de estratégia; grita contra a fraude, mas sussurra quando se trata de apresentar uma visão que vá além da mera contestação. É um espelho partido: quanto mais se fragmentam as vozes contrárias, mais nítida se torna a hegemonia de quem está no poleiro.
E no meio deste xadrez de elites, há o povo. O povo que enfrenta o surto de cólera nas províncias do Centro e norte do pais, enquanto lê sobre milhões de dólares aprovados para a reconstrução de Cabo Delgado. O dinheiro chega em dólares, mas a cura e o progresso parecem falar uma língua que o camponês de Angoche ou o jovem licenciado ainda não entendem. A política moçambicana tornou-se um jogo de sombras: vemos os movimentos no topo, mas a substância da mudança perde-se na poeira das estradas esburacadas.
O que se sente é que Moçambique está a aprender a ler as entrelinhas. A paciência, essa virtude tão moçambicana, está a ser testada pela realidade de um crescimento económico que se lê nos relatórios do BAD, mas que não se mastiga à mesa. Entre a continuidade renovada do poder e a oposição em busca de si mesma, o país segue, como um barco em tempo de ciclone balançando muito, mas com os olhos
postos num horizonte que teima em manter-se enevoado.
Uma vez em uma batalha disse que nos somos moçambicano conhecemos o cheiro da lama, essa expressão Moçambicana significa reconhecer que o povo desenvolveu um olfato apurado para a corrupção e para as promessas vazias. E no fim prever o Moçambique previsível
Sentimos o cheiro quando se fala em “investimento para o povo” enquanto se escondem biliõesl.
Sentimos o cheiro quando os recursos naturais (gás, rubis, carvão) são anunciados como a salvação da pátria, mas o lucro parece voar para contas no estrangeiro, deixando para trás apenas o pó e o conflito.
Sentimos o cheiro quando nos dizem para “apertar o cinto” enquanto as elites desfilam carros de luxo em estradas cheias de buracos.
O moçambicano é paciente, sim, mas não é cego. Esse cheiro que referes é o resultado de décadas de uma gestão que hipotecou o futuro das próximas gerações para alimentar o presente de meia dúzia.
É uma revolta silenciosa (e às vezes nem tanto) de quem sabe que, no tabuleiro do poder, o povo tem sido tratado como o peão que serve apenas para ser sacrificado. O problema é que, como dissemos antes, até o peão pode dar xeque-mate e a paciência de quem vive no meio desse “cheiro” tem limites.
Como se diz por cá: a barriga vazia não tem ouvidos, mas o nariz está bem alerta.
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