Connect with us

OPINIÃO

Trator-chapa: a metáfora perfeita de um país atolado no improviso e a caminho nenhum

Publicado há

aos

Diz-se que um dia, no interior profundo de Mueda, um trator-chapa novo foi entregue à comunidade. Veio com pompa, discurso e fita para cortar.

O administrador local, sorridente como quem resolve o país inteiro com um volante, disse:

— “Este trator-chapa é símbolo do progresso! Agora ninguém fica para trás!”

Só que, no primeiro dia de serviço, o trator não conseguiu subir a colina da aldeia. Patinou, bufou, cuspiu fumo… e parou.

Enquanto o motorista tentava dar ignição pela enésima vez, um velho camaleão que estava ali no capim, quietinho, atravessou a estrada devagar, com os olhos a girarem como radares.

Um miúdo que viu tudo comentou:

— “Olha o camaleão, vai chegar à vila antes do trator-chapa!”

O povo riu. O chefe do posto tentou disfarçar o embaraço e disse:

— “É só uma questão de adaptação, como o camaleão!”

O velho da aldeia, com voz arrastada, atalhou:

— “Não confunda camaleão com improviso. O camaleão muda de cor para sobreviver. Vocês mudam de discurso para nos enganar.”

E alguém do fundo gritou:

— “Esse trator-chapa só vai aonde o camaleão já passou há uma semana!”

Esta é uma pura realidade! Em certos lugares do nosso país, o transporte público deixou de ser apenas um problema, tornou-se uma humilhação sobre rodas. O chamado trator-chapa, essa solução inventada sabe-se lá em que gabinete de desespero, é a imagem viva de um país a perder o rumo. Um escândalo em marcha lenta, que nos lembra, a cada metro sacudido, que estamos a ser governados com improviso em vez de visão.

É preciso dizer com todas as letras: o trator-chapa não é uma inovação, é um insulto. É a normalização da precariedade. Quando o governo, em pleno século XXI, decide transportar cidadãos: crianças, grávidas, trabalhadores, estudantes, num trator adaptado com bancos de madeira, está a admitir, sem vergonha, que falhou no básico. Que trocou o progresso por paliativos. Que já não tenta esconder o abandono, exibe-o com orgulho em forma de chapa improvisada.

E o pior é que se tenta vender essa aberração como solução “adequada à realidade local”. Como se as pessoas do campo ou da periferia tivessem nascido para andar em viaturas sem amortecedores, cobertas de poeira ou encharcadas pela chuva. Como se fosse aceitável que alguém se machuque para ir trabalhar, que uma mãe perca a consulta do filho porque o trator ficou atolado na lama. Como se ser pobre fosse sinónimo de aguentar tudo.

Mas não é. Não devia ser.

O trator-chapa não é apenas um veículo mal-ajambrado, é um símbolo. Símbolo de um país atolado em promessas não cumpridas, de políticas públicas que nascem sem escutar o povo, de uma governação que responde às urgências com soluções que envergonham. É a metáfora perfeita de um Moçambique que caminha devagar, tropeça, desliza e, no fim, ainda sorri para a câmara no dia da inauguração.

Enquanto isso, as estradas que ligam aldeias a vilas e vilas a cidades continuam abandonadas. Estradas onde ambulâncias não conseguem passar. Onde produtos apodrecem antes de chegar ao mercado. Onde as pessoas se cansam antes mesmo de sair de casa. E aí, quando tudo parece não poder piorar, oferecem-lhes um trator.

Chamam-lhe solução criativa. Nós chamamos de descaso, de falta de respeito, de fracasso institucional.

Noutros países, quando há dificuldades, investe-se em infraestrutura, reforça-se a mobilidade, pensa-se em transportes seguros e dignos. Aqui, transforma-se máquina agrícola em chapa de transporte público. Aqui, quando se fala em inovação, está-se a falar em remendos mal pensados para tapar buracos que já engoliram gerações inteiras.

O povo está cansado de se adaptar à precariedade. Quer estradas transitáveis, quer autocarros com horários e segurança, quer dignidade ao deslocar-se. O povo não quer mais empurrar trator, nem dar graças por soluções que só aumentam o sofrimento. Não se pode desenvolver um país com medidas improvisadas. Não se pode modernizar um território com máquinas de lavoura a transportar vidas humanas.

Se o trator-chapa é o símbolo do estado da nação, então estamos atolados até ao pescoço, e os motores da mudança ainda não foram ligados.

É tempo de sair da marcha lenta. De deixar o improviso onde ele pertence, nos primeiros socorros, não na governação. É tempo de construir vias reais, com políticas sérias, com investimentos estruturais. Porque o povo já está farto de ser transportado como carga. Porque o desenvolvimento verdadeiro não viaja num trator com bancos de madeira, viaja na coragem de respeitar o cidadão e de fazê-lo avançar com dignidade. E mais não disse!

 

 

 

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais Lidas