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OPINIÃO

Quando a cadeira é maior que o dono

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Em muitas instituições moçambicanas, tanto públicas, privadas ou comunitárias, há um fenómeno curioso que se repete como chuva teimosa na época chuvosa: chefes que não são chefes, mas ocupantes acidentais da cadeira.

Gente que entrou pela porta do fundo, não por mérito ou competência, mas pelas mãos da superstição, da botânica de curandeiros e dos atalhos obscuros que a noite conhece e o dia prefere não comentar. E, por não suportarem o peso da própria incompetência, fazem da gritaria o seu método de liderança.

Acordam inseguros, passam o dia desconfiados e dormem com medo que alguém descubra que não sabem o que fazem. A chefia, que devia ser serviço, torna-se palco para os seus fantasmas internos. E para esconder o tremor das mãos, eles batem na mesa; para disfarçar o vazio das ideias, fazem discursos longos; para mascarar a falta de estratégia, inventam regras como quem espalha cinza ao vento.

O problema não é só deles, é de todos nós que convivemos com chefes que confundem medo com liderança, autoridade com intimidação, respeito com subserviência. É a cultura do “eu sou chefe”, repetido mil vezes, porque por dentro sabem que não o são. Parecem grandes, mas só porque a cadeira é maior que o dono.

No fundo, estes chefes são como panelas velhas: fazem barulho, mas não cozinham nada. E espalham inquietação nas equipas, destroem talentos, matam sonhos e transformam ambientes laborais em campos minados de fofoca, medo e desconfiança. Ninguém cresce à sombra de um chefe que vive escondido dos seus próprios demónios.

A liderança verdadeira não precisa de gritar. Não precisa de se impor.  Não precisa de fazer-se temer. Liderar é servir, orientar, inspirar e abrir caminhos. E quem sabe caminhar não precisa de curandeiro para confirmar se será chefe amanhã. A competência fala sozinha, sem velas, sem pós, sem galinhas sacrificadas ao amanhecer.

Moçambique precisa de líderes de verdade, gente formada, preparada, ética e lúcida. Chefes que não se escondam atrás de superstição, mas que se firmem na inteligência, na capacidade de escutar e na humildade de admitir que não sabem tudo.

Enquanto continuarmos a aceitar chefes feitos às pressas, com métodos sombrios e fragilidades mal disfarçadas, continuaremos a ter instituições frágeis e trabalhadores adoecidos.

Numa direcção distrital de um dos nossos municípios, o chefe recém-nomeado era conhecido por nunca ter conseguido terminar qualquer curso técnico. Era apontado como alguém que “se fez na madrugada”, após ter passado dias num curandeiro famoso da zona de Namapa.

Ao assumir o cargo, começou a gritar com todos — motoristas, secretárias, estagiários — como se o volume da voz fosse currículo. Quando a equipa exigiu reuniões de planificação, ele recusou. Quando pediram orientações estratégicas, respondeu com raiva. Quando o director provincial visitou o sector, descobriu que ninguém sabia o que fazer, porque o chefe não sabia o que mandar.

Foi afastado discretamente meses depois, e a instituição começou a funcionar quando um técnico competente assumiu. A cadeira continuou lá; o problema nunca foi ela. O problema era quem a ocupava. E mais não disse!

 

 

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