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OPINIÃO

Pedra a pedra construindo um novo dia

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No fundo de cada canto colectivo, vive uma promessa. No hino nacional do nosso país, essa promessa não é apenas recordação do que fomos ou celebração do que conquistámos, é apelo constante ao que ainda não somos, ao que ainda falta ser. Quando o povo canta “pedra a pedra construindo um novo dia”, não está a repetir uma fórmula poética. Está, consciente ou não, a assumir uma tarefa. Está a declarar que o país ainda está em construção. Que a liberdade não se esgota no acto de independência, nem a justiça se cumpre num decreto, nem a paz se garante com armas caladas. Há um edifício nacional por levantar, todos os dias, com as mãos do povo. E esse edifício não se ergue de cima para baixo, ergue-se com suor e sonho, com verdade e sacrifício, com cidadania activa e espírito colectivo.

É preciso começar por reconhecer que nenhuma construção se faz no vazio. O chão onde assentamos os nossos dias é feito de lutas, de memórias e de sangue. Há pedras antigas que sustentam esta pátria: são as batalhas travadas nas matas, os manifestos escritos à luz de vela, as palavras proibidas ditas com coragem, as mães que enviaram filhos para a frente da guerra, os jovens que renunciaram à juventude para conquistar um amanhã livre. São essas pedras, pesadas de história, que formam o alicerce da nossa identidade. Mas o problema começa quando tratamos a história como relíquia de museu e não como bússola. Quando a guardamos em datas e retratos, mas a esquecemos nas escolhas do presente. Porque a memória, quando não é viva, deixa de ser fundação e torna-se apenas ruína decorativa.

E que dizer da argamassa que devia unir-nos? Há um cimento moral que nos falta. Porque construir um novo dia exige mais do que líderes, exige cidadãos. Cidadania não é estar à espera que alguém decida. É estar disponível para agir. É participar, escutar, questionar, organizar. É recusar a corrupção mesmo quando nos beneficia. É defender os que não têm voz, mesmo que isso nos custe conforto. Votar não é tudo. Marchar também não. Cidadania verdadeira é aquela que se vive no quotidiano: na forma como tratamos os outros, como usamos os bens públicos, como educamos os nossos filhos, como reagimos à injustiça. O novo dia só virá se cada moçambicano se reconhecer como pedreiro desta pátria, com a humildade de quem sabe que ninguém constrói nada sozinho.

Mas nenhum edifício se mantém em pé com base apenas na vontade. É preciso justiça como estrutura. E justiça, em Moçambique, continua a ser, muitas vezes, privilégio e não direito. Como falar de novo dia, quando há milhares de jovens graduados em universidades cujos diplomas brincam com ratos? E ainda várias crianças que aprendem debaixo de árvores, enquanto alguns constroem mansões com dinheiro do povo? Como cantar progresso, quando em tantas zonas rurais o acesso à saúde é uma miragem, e a fome é companheira de casa? Como unir um povo quando há fendas tão profundas entre o norte e o sul, entre os que mandam e os que obedecem, entre quem tem tudo e quem só tem silêncio? O novo dia não pode ser só para quem vive na capital. Não pode ser festa para uns e penúria para outros. Ou avançamos juntos ou ficamos todos atrasados. A construção só será real quando não deixar ninguém de fora.

Erguer um novo dia é também acto de imaginação. Precisamos de um outro projecto de país. Um projecto que não seja cópia, nem imposto, nem improvisado. Um projecto que respeite os rios e as florestas, que dê valor à cultura como expressão da alma e não como decoração de eventos. Um país onde o saber tradicional e o conhecimento científico não se excluam, mas se abracem. Onde o desenvolvimento não signifique destruição. Onde o poder não seja meio de acumular, mas instrumento de servir. Precisamos de um novo mapa mental, onde o centro seja o ser humano e não o lucro. Onde o bem comum seja prioridade. E essa visão não virá dos gabinetes apenas. Ela nasce também nos bairros, nas comunidades, nas escolas, nas igrejas, nos mercados. Sonhar um país melhor é tarefa de todos.

E é por isso que os verdadeiros operários do novo dia nem sempre aparecem na televisão. São os professores que ensinam com ou sem salário. São as parteiras tradicionais que salvam vidas longe dos hospitais. São os jovens que recusam a apatia e criam redes de solidariedade. São as mães que acordam antes do sol para garantir que haja comida e água potável. São os artistas que, mesmo sem apoio, continuam a criar, a denunciar, a iluminar. São os camponeses que, entre a seca e a chuva, teimam em pôr comida nas nossas mesas. Todos estes, sem farda, sem palácio, sem palco, são os que realmente constroem a pátria. Uns com martelo, outros com palavras, outros apenas com fé. Mas todos com responsabilidade.

Construir um novo dia não é acto mágico. É acto contínuo. É começar e recomeçar. É não desistir mesmo quando tudo parece lento ou falhado. É saber que o amanhã não se espera, trabalha-se. E trabalha-se com persistência, com lucidez, com espírito de partilha. Moçambique não se constrói apenas nos dias de celebração nacional. Constrói-se nas escolhas pequenas, nos actos invisíveis, na coragem quotidiana. Constrói-se quando resistimos ao cinismo, quando escolhemos a verdade, quando apostamos no bem comum mesmo que pareça mais difícil. E, sobretudo, quando olhamos para o outro, o vizinho, o desconhecido, o diferente e o reconhecemos como parte do mesmo edifício.

“Pedra a pedra construindo um novo dia” não é frase para se repetir com voz automática. É uma convocatória. Um chamado. Um aviso. A pátria é obra inacabada. Não está feita, está a fazer-se. E será sempre reflexo do que formos capazes de pôr nela. Se pusermos ódio, teremos ruína. Se pusermos esperança, teremos alicerce. Se pusermos egoísmo, teremos torres ocas. Se pusermos justiça, teremos casa para todos.

Por isso, sejamos mais do que habitantes. Sejamos construtores. Sejamos pedreiros de futuro, carregadores de dignidade, mestres de cidadania. E que o hino que cantamos seja mais do que música: que seja plano, que seja pacto, que seja prática. Porque a pátria amada que invocamos não será gloriosa só por ter sido libertada. Será gloriosa por ter sido construída — todos os dias — com mãos limpas e coração desperto. E essa construção começa agora. Em cada um de nós. E mais não disse!

 

 

 

 

 

 

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