OPINIÃO
Onde o progresso devia passar, reina o pó do abandono
Dizem que num distrito algures em Moçambique, um ministro foi convidado para inaugurar um “novo troço de estrada”. Chegou de helicóptero, claro. Quando desceu, viu o povo coberto de pó até ao nariz, e uma fila de crianças com cartazes que diziam: “Obrigado, Excelência, pela estrada que ainda sonhamos!”
O ministro, confuso, cochichou para o assessor:
— “Mas… disseram-me que já tinham asfaltado a via!”
O assessor, suando mais que trabalhador de enxada ao meio-dia, respondeu:
— “Asfaltar, não. Disseram que vão asfaltar. Por enquanto, alisaram o chão com um trator emprestado e regaram água só para a foto.”
O ministro sorriu para as câmaras, cortou a fita, e todos aplaudiram… até o vento levantar o pó de novo e cobrir a placa da inauguração.
Um velho, lá do fundo, murmurou:
— “Aqui, até o progresso é poeira que só se vê na véspera de eleições…”
Tenho a sorte de viajar muito e conhecer vários sítios longínquos da Pátria Amada. E há, ainda hoje, lugares em Moçambique onde o tempo parece parado. Não por falta de gente, mas por ausência de presença do Estado. São estradas que deviam ligar a esperança, mas ligam apenas poeira e silêncio. Cada buraco não tapado é um lembrete de que onde devia passar o progresso, reina o pó do abandono.
Basta fazer um percurso de poucas dezenas de quilómetros fora da cidade ou das vila distrital para entender: o desenvolvimento não tem chegado de chapas, muito menos de tratores adaptados. Ele fica pelo caminho, preso nos buracos fundos como crateras, onde carros afundam, ambulâncias atrasam-se, e vidas se perdem por minutos que custam caro. Porque aqui, cada atraso não é só contratempo. É perda real.
É nessas estradas esburacadas que se arrastam as promessas políticas de campanhas passadas. Palavras como “infraestruturas resilientes”, “conectividade territorial” ou “acesso às zonas produtivas” parecem estrangeiras demais para quem anda a pé, a tropeçar na lama e a respirar pó seco desde que nasceu. O progresso tem sempre morada certa, e não é no bairro pobre, nem na zona rural, nem na travessia que leva produtos da machamba ao mercado.
O mais doloroso é que todos sabem. Governantes sabem. Técnicos sabem. E nós, o povo, sabemos mais do que ninguém. Sabemos o que significa carregar doentes numa motorizada porque a estrada não permite que chegue uma ambulância. Sabemos o que custa vender mandioca a preço de banana porque o transporte até à cidade consome o lucro todo. Sabemos o que é perder aulas, perder consultas, perder vidas, tudo porque a estrada, essa que devia ligar oportunidades, está ali a zombar do nosso direito de avançar.
O pó do abandono cobre as casas, cobre os sonhos, cobre até a voz de quem já não acredita que algo vai mudar. Mas por detrás dessa camada espessa de esquecimento, há um povo que continua de pé. Porque o abandono cansa, mas não cala. E chega uma hora em que já não basta dizer “vai melhorar”, o povo quer ver, quer pisar, quer sentir o progresso no chão, não só no discurso.
É preciso lembrar que estrada é mais do que via. É artéria de vida. É por ali que circula a dignidade de um país. Quando se escolhe não reabilitar uma estrada, não se está apenas a adiar obras, está-se a atrasar o futuro de milhares. E essa responsabilidade é política, sim. Mas é também moral.
Se o Estado existe, que se faça sentir. Não em forma de escolta em dia de comício, mas como compromisso visível no pó que se transforma em asfalto. Que o progresso deixe de ser promessa abstracta e se torne caminho real, onde o camponês passa com dignidade, o aluno chega a horas, a grávida não morre a caminho do parto.
Enquanto houver buracos no chão, haverá buracos na esperança. Mas o povo ainda acredita. Acredita que o amanhã pode chegar, mas só se quem governa largar a cadeira do conforto e pisar o chão do abandono. Porque é ali, no meio do pó, que o verdadeiro Moçambique clama por atenção. E mais não disse!
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