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OPINIÃO

O sol de Junho para sempre brilhará

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Quando cantamos que “o sol de Junho para sempre brilhará”, não estamos apenas a repetir palavras comovidas por patriotismo de ocasião. Estamos a renovar um compromisso, íntimo, colectivo, vivo, com a liberdade, com a justiça, com a dignidade e com a soberania de um povo que decidiu não ser mais escravo nem espectador do seu destino. Esse verso do hino nacional, tantas vezes entoado em cerimónias, deveria arder dentro de nós como desafio, não como conforto.

Mas para que esse sol brilhe mesmo, e não apenas no papel, é preciso mais do que memórias. É preciso que não nos resignemos à sombra dos símbolos. Porque há quem se esconda neles. Há quem use o hino como escudo para não ouvir as críticas. Há quem celebre a pátria em público e a traia em silêncio. Esta reflexão nasce dessa tensão entre o que declaramos com entusiasmo e o que praticamos com relutância. O “sol” só brilhará para sempre se não nos contentarmos com uma independência formal. É esse o convite desta crónica: caminhar com lucidez por esse verso radiante e tudo o que ele exige de nós.

O sol de Junho é mais do que metáfora, é ferida e farol. É a imagem da libertação conquistada com o corpo, com o silêncio, com a raiva transformada em coragem. Não se trata de uma data simpática no calendário, trata-se do dia em que deixámos de ser mandados. Esse sol foi aceso na mata, nos passos dos guerrilheiros que calçaram a terra com esperança. Foi aceso na solidão das viúvas, nas cartas sem resposta, nos cânticos que atravessaram os campos como orações armadas. Mas dizer que ele brilhará “para sempre” é, ao mesmo tempo, acto de fé e cobrança moral.

O sol não pode brilhar onde reina a exclusão. Não há sol possível sobre aldeias sem água, sobre escolas com paredes a cair, sobre jovens que aprendem a desesperar antes de aprender a ler. Não há luz onde os sonhos são sistematicamente adiados por falta de vontade política. O sol de Junho, para continuar a nascer, precisa de ser cultivado. Precisa de justiça com rosto. Precisa de cidadãos despertos. Precisa de líderes que sirvam em vez de se servirem.

Cantar “para sempre” é ambicioso, ,talvez até audacioso. E é justamente por isso que nos deve fazer pensar. Para sempre… para quem? Para os filhos da elite que estudam fora, para os que têm clínicas privadas e projectos garantidos? Ou para as famílias deslocadas que vivem entre o pó e a promessa? Para os pescadores que regressam com redes vazias? Para as enfermeiras que trabalham à luz de telemóveis? A eternidade de um verso só tem valor se a sua luz tocar a vida de quem mais precisa.

Independência verdadeira é a que se reconstrói todos os dias. Não é relíquia. Não se arquiva. Não se celebra só com discursos. Vive-se. É feita de escolhas concretas: respeitar o que está na Constituição, combater a corrupção sem hesitações, garantir que todos tenham acesso à escola, ao hospital, à estrada, à internet. É proteger o ambiente e os recursos como herança comum. É confiar na juventude e não usá-la apenas como cartaz.

Brilhar também é expor. É revelar o que queremos esconder. O sol de Junho não é só luz, é também espelho. Ele denuncia a pobreza que ainda humilha, as promessas que ficaram no papel, os discursos que não se refletem na prática. Mas também acende, acende a arte, a música, a solidariedade. Ele vive nas mãos que criam, nos pés que marcham, nas vozes que ousam perguntar, nos olhos que recusam baixar-se. Brilhar é resistir e propor.

O brilho do nosso hino é, por isso, uma responsabilidade que não se deve tomar de ânimo leve. Cada vez que cantamos que o sol brilhará para sempre, estamos a reafirmar um voto de honra com os que deram tudo — até a vida — por esse futuro. Não é um favor que fazemos à história. É um dever que temos com ela. Herdámos um país com potencial vasto. E não podemos aceitar migalhas, nem resignar-nos à mediocridade quando nos foi prometido um Moçambique livre, justo e próspero.

Mas esse sol precisa de nascer para todos. Porque um país onde só alguns vivem bem não é pátria, é negócio. O sol não pode ser luxo de poucos. Tem de ser partilhado. Tem de iluminar o norte esquecido, o centro abandonado, o sul empobrecido. Tem de brilhar na cidade e na aldeia. Na escola pública e no mercado informal. No hospital do bairro e no campo da machamba. A luz que não alcança todos é claridade de mentira. E a independência que não se sente no estômago nem no bolso, não passa de ficção política.

O sol, por natureza, renasce todos os dias. E assim devia ser a nossa cidadania: um exercício constante de presença. Não é suficiente cantar nas comemorações. É preciso viver o hino. É preciso intervir, questionar, propor, agir. É preciso sair do conforto da crítica de sofá para o desconforto da participação activa. Cada cidadão pode ser sol: o professor que ensina com dedicação apesar da falta de condições, o jornalista que investiga sem medo, o jovem que se organiza, o camponês que não desiste, a mulher que resiste ao silêncio imposto. Heróis não vivem só nos livros, vivem entre nós.

Moçambique, o teu hino é mais do que melodia, é carta de princípios. E esse verso, “o sol de Junho para sempre brilhará”, é talvez o mais exigente de todos. Não é para ser repetido em vão. É para ser vivido. E para que ele se cumpra, precisamos expulsar as trevas da indiferença, da incompetência, da exclusão, da mentira disfarçada de governação.

Porque o sol de Junho não brilha por decreto. Ele depende do nosso compromisso. Depende de cidadãos atentos e líderes íntegros. Que ele brilhe, sim, mas como liberdade real, como justiça concreta, como esperança sentida. Que ele brilhe nas páginas que ainda vamos escrever, nas pequenas vitórias do quotidiano, nos olhos das crianças que ainda acreditam.

Para que um dia, possamos todos, sem excepção, dizer com verdade, sem hesitação nem cinismo: Moçambique, o teu sol nunca se pôs. E mais não disse!

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