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OPINIÃO

O silêncio dos cemitérios e o barulho das ruas

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Há lugares onde o tempo devia parar. Os cemitérios, por exemplo. Aqueles lugares em que quando me aproximo sinto o arrepio do corpo e os “cabelos caindo”. Espaços de silêncio, de respeito, de memória. Mas em muitas cidades do meu país, Moçambique, cada vez mais, os mortos parecem não ter direito ao descanso, e os vivos fazem da sua presença um ruído constante. O silêncio dos cemitérios já não é guardado, é invadido.

Passa-se nas cidades e até nalgumas aldeias: cemitérios encurralados por barracas de cerveja, colunas a tocar música em volume de discoteca, mercados improvisados a vender tomates e roupa usada entre campas partidas. O morto, que devia dormir na eternidade, acorda sem querer ao som de “DJ qualquer-coisa” a testar colunas. É esta a nossa modernidade?

Dizem que é globalização. Mas não. A globalização trouxe telemóveis, internet, transporte rápido. O que temos aqui é descuido, esquecimento, desrespeito. É a confusão entre liberdade e abuso ou ainda, se o quisermos contextualizar, é libertinagem. Os cemitérios, que deviam ser sagrados, tornaram-se extensão do barulho das ruas.

Na nossa tradição africana, o morto não morre de vez. Ele continua a acompanhar a família, a zelar pela casa, a visitar sonhos. Por isso a campa é lugar de reverência. Mas agora, com a pressa da cidade e o egoísmo do comércio, o túmulo virou sombra de barraca, espaço de negócio, depósito de lixo. O espírito dos antepassados, que merecia vela e canto, recebe garrafas de cerveja vazias e restos de frango. O mais caricato que acontece, por exagero, encontramos fraldas e até pensos femininos.

E a pergunta impõe-se: que memória cultural vamos deixar se já nem os mortos respeitamos? Se não conseguimos guardar silêncio junto de quem nos deu a vida, como havemos de educar os vivos no valor da dignidade?

Este é o retrato de um povo que corre atrás do “moderno”, mas esquece o essencial. O mundo globalizado ensina-nos a correr, mas não a parar para pensar. Faz-nos erguer prédios, mas não conservar os túmulos. Faz-nos abrir barracas, mas não fechar a boca em respeito quando passamos junto a um cemitério.

O silêncio dos cemitérios devia ser lição. Uma escola onde cada campa ensinasse humildade. Onde cada cruz lembrasse que todos, ricos e pobres, brancos e negros, líderes e governados, vamos parar no mesmo chão. Mas essa escola está a ser abafada pelo barulho das ruas.

E o barulho das ruas não é só literal. É também o ruído da corrupção, da pressa, da indiferença. Enquanto não soubermos calar diante da morte, não saberemos viver com dignidade.

As cidades moçambicanas precisam reaprender a escutar os mortos. Não com medo, mas com respeito. Porque a grandeza de um povo não se mede apenas pelo que constrói em vida, mas também pelo cuidado que tem com os que já partiram. O silêncio dos cemitérios é a voz mais séria da nossa memória. E hoje, essa voz está a ser esmagada pelo barulho de um tempo que não sabe parar.

O meu pai contou-me que um dia, num bairro qualquer, um homem levantou uma barraca mesmo ao lado do cemitério. Todos perguntaram-lhe:

— Mas, compadre, como é que vais vender cerveja ao lado dos mortos?

Ele respondeu, todo sério:

— Aqui nunca vou falir, meus clientes são garantidos. Se os vivos não vêm, os mortos escutam a música.

E assim foi. Barraca cheia de som, “DJ Khanòva”, gargalhadas, copos a tilintar. Mas numa noite, ao fechar a barraca, o homem ouviu vozes lá dentro:

— Eh, chefe, hoje a música estava boa… mas amanhã toca mais baixo, porque alguns de nós morreram de velhice, não de surdez!

Correu dali como quem viu diabo em pessoa. E mais não disse!

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