OPINIÃO
O Banquete das Sombras
Moçambique não é um país pobre; é um país empobrecido pela etiqueta de quem o governa. Sentados em cadeiras de couro importado, sob o frio artificial de gabinetes que ignoram o calor asfixiante das ruas de todas as províncias do norte ou o cheiro ao lodo das cheias do Sul, os nossos dirigentes parecem sofrer de uma cegueira seletiva.
É uma miopia de luxo: enxergam perfeitamente o brilho das comissões e das concessões, mas
perdem o foco quando o assunto é o prato vazio de quem os elegeu.
A narrativa oficial continua a ser a mesma sinfonia desafinada de “estabilidade” e “crescimento macro económico”. Mas que estabilidade é esta que não impede o jovem graduado de vender crédito de celular na esquina? Que crescimento é este que só se reflete no volume das contas bancárias de uma elite que se comporta como se fosse dona da bandeira e não servidora dela? A situação em que nos encontramos é de um dramatismo quase teatral.
Somos o povo da resiliência essa palavra que os governantes adoram usar para romantizar a nossa miséria. Dizem que somos fortes, mas a verdade é que estamos apenas cansados. Cansados de ver os recursos naturais serem anunciados como a “salvação da pátria” enquanto os lucros voam para paraísos fiscais e as migalhas caem sobre um povo que ainda luta para ter giz nas escolas e paracetamol nos hospitais.
É questionável o silêncio daqueles que deveriam gritar. A preocupação dos nossos líderes parece estar mais voltada para o próximo ciclo eleitoral ou para a próxima recepção diplomática do que para a criança que estuda debaixo de uma mangueira porque a “prioridade orçamental” foi o novo palácio de uma direção qualquer.
Moçambique tornou-se um banquete onde o povo é o ingrediente, nunca o convidado. Enquanto os dirigentes brindam ao “desenvolvimento”, o país real o das estradas esburacadas e da fome que dói no silêncio da noite, assiste à festa através de uma vidraça que ninguém se atreve a quebrar. Mas a história ensina: vidraças não são eternas, e a fome de justiça é a única que o banquete das elites nunca conseguirá saciar.
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