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SOCIEDADE

Morre mãe e bebé após recusa de atendimento no Hospital Central de Nampula

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Família denuncia negligência e arrogância médica; hospital nega e fala em “catástrofe obstétrica” e “condições improvisadas”

Uma parturiente transferida do distrito de Mogovolas perdeu a vida, juntamente com o seu bebé, no último fim-de-semana, depois de alegadamente ter sido recusada pelos profissionais de saúde da maternidade do Hospital Central de Nampula (HCN), que a confundiram com um “caso de bolada”,  termo popular usado para designar pacientes que teriam pago suborno para obter prioridade no atendimento.

Segundo os familiares, que são enfermeiros de profissão, a mulher deu entrada na unidade sanitária por volta das 13 horas, com sinais de hemorragia e indicação médica para uma cesariana de urgência. “Fizemos os procedimentos e disseram-nos que era preciso operar. Às 14 horas levaram-na ao bloco, mas o médico recusou-se a atender, dizendo: ‘Essa paciente é uma bolada, não vou atender. Pensam que pagaram para passar à frente.’ Tentámos explicar que era nossa irmã e precisava de socorro urgente, mas ele manteve-se irredutível”, contou um dos parentes, visivelmente abalado.

Outro familiar confirmou o episódio, afirmando ter interpelado um dos clínicos de serviço, identificado apenas por doutor Emane. “Quando me viu, perguntou o que eu fazia ali. Expliquei que era colega e pedi que ajudasse, mas respondeu que devia retirar-me e que não iria atender o caso.”

A demora na intervenção acabou por ser fatal. A mulher faleceu momentos depois, acompanhada do bebé que carregava. “É uma dor que não tem explicação. Ela lutou até ao fim e morreu à espera de humanidade”, lamentou um dos familiares, pedindo justiça e responsabilização dos envolvidos.

O caso gerou revolta nas redes sociais e reacendeu o debate sobre o tratamento desumano, a corrupção e a cultura de impunidade em algumas unidades hospitalares do país, sobretudo nas maternidades públicas.

Hospital nega negligência e diz que foi “catástrofe obstétrica”

Face à onda de críticas, a direcção do Hospital Central de Nampula reagiu às acusações, negando que tenha havido recusa de atendimento e classificando o caso como uma “catástrofe obstétrica”.

Em conferência de imprensa, o director dos Serviços de Ginecologia e Obstetrícia, Dinis Viegas, explicou que a maternidade está actualmente em obras de reabilitação, funcionando em condições improvisadas e com apenas uma sala de cirurgias disponível. “Neste momento, a maternidade está a operar no antigo serviço de urgência, com capacidade limitada. Por dia realizamos cerca de 30 partos e 15 cesarianas. No dia do ocorrido, chegaram quatro emergências em simultâneo”, justificou.

director dos Serviços de Ginecologia e Obstetrícia, Dinis Viegas

Viegas acrescentou que a vítima apresentava uma rotura uterina, uma complicação grave conhecida como catástrofe obstétrica, agravada por idade avançada e múltiplas gestações.

“Era uma mulher de quase cinquenta anos, que já tinha tido nove gestações anteriores. Só essa caracterização já a colocava no grupo de alto risco de morte materna. Infelizmente, chegou numa altura em que tínhamos várias emergências ao mesmo tempo, e o tempo de resposta era muito curto”, explicou o médico.

O responsável defendeu ainda o profissional acusado pela família, afirmando que “nem estava de serviço naquele momento” e que o médico de plantão “salvou dez vidas naquele dia”.

Segundo o hospital, a paciente terá sido tardiamente transferida de Mogovolas, depois de várias horas de espera na periferia, e sem o devido acompanhamento pré-natal especializado. “Foi uma morte evitável, mas não provocada. A janela de tempo para salvar a paciente era mínima, porque o útero tinha rompido e havia hemorragia massiva”, sublinhou o clínico.

O HCN assegura que o caso está a ser analisado pelo Comité de Discussão de Mortes Maternas, mas até ao momento não foi anunciada qualquer medida de responsabilização. Faizal Raimo

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