ECONOMIA
Justino de Namicopo sobre o que ainda falta no bairro
“Assumi Namicopo quando ninguém queria. Hoje tenho orgulho, mas ainda falta muito para o bairro que merecemos”
O blogueiro e activista comunitário Justino Alfredo dos Santos Muirumpe, conhecido como “Justino de Namicopo”, afirma que, apesar das mudanças positivas na imagem do bairro, Namicopo continua a enfrentar sérias carências em infra-estruturas sociais, incluindo poucas escolas, poucos postos policiais e quase inexistência de centros recreativos para jovens. Ao Rigor, Justino defendeu que o orgulho hoje conquistado ainda não se traduziu em melhores condições de vida para a maioria dos moradores.
“Temos poucas esquadras, poucas escolas e quase nenhum centro recreativo para os jovens passarem os seus momentos de lazer. Precisamos de mais centros recreativos e escolas comunitárias”, afirmou, sublinhando que o desenvolvimento do bairro ainda não acompanha a mudança de percepção pública.
Apesar dessas limitações, Justino reconhece que Namicopo já não é visto apenas como sinónimo de criminalidade e marginalidade, como aconteceu durante muitos anos. Segundo ele, houve uma transformação na forma como o bairro é encarado, tanto dentro como fora de Nampula, fruto do esforço de vários jovens e activistas locais.
“Hoje, Namicopo é um dos bairros mais calmos. Muitas vezes ouve-se falar de crimes noutros bairros, mas continuam a apontar Namicopo como se fosse o centro de tudo. Muitas vezes, quem comete crimes nem é de Namicopo. Isso é discriminação”, frisou.
Justino tornou-se uma das figuras mais visíveis desse processo ao assumir publicamente a identidade “Justino de Namicopo”, num contexto em que muitos evitavam associar-se ao bairro devido ao estigma. Para ele, a escolha do nome foi uma forma de enfrentar o preconceito e transformar a narrativa sobre Namicopo.
“Eu nasci, cresci no bairro de Namicopo, nunca saí para outros ares. Na escola, sofri estigma e bullying por ser nativo de Namicopo. Aquilo foi crescendo, e cheguei à conclusão que uma das formas de superar isso era assumir”, relatou.
No início, a decisão foi mal compreendida e gerou suspeitas. “Nos primeiros meses foi difícil. As pessoas acreditavam que este Justino de Namicopo fosse chefe de uma quadrilha ou de uma gangue. Mas, com o tempo, perceberam que eu sou uma pessoa normal, e que, assim como eu, muitos jovens de Namicopo também são normais”, explicou.
Segundo o blogueiro, o objectivo nunca foi promover a imagem negativa do bairro, mas mostrar uma realidade mais completa. “A ideia foi mostrar que nós também temos pessoas normais, pessoas que estudaram, pessoas que estudam, pessoas que trabalham, pessoas com respeito. Existem marginais, sim, como em outros bairros, mas Namicopo não é só isso”, afirmou.
O impacto da sua acção digital ultrapassou o próprio bairro, inspirando outros jovens a usarem o nome Namicopo como marca e identidade positiva. Justino citou o exemplo de um jovem de Muahivire que criou a marca “Puto de Namicopo” e passou a vender camisetas. “Ele disse que se inspirou em mim. Isso mostra que já fiz a minha parte”, contou.
Para além da mudança de imagem, Justino destaca também a criatividade e a capacidade de sobrevivência da juventude local. “Em Namicopo há jovens que não sabem ler, mas fazem importação de carros, têm empresas de importação de telefones. Temos o melhor cérebro desta província. Jovens que perceberam que não têm outra saída e têm de fazer alguma coisa para melhorar a vida”, afirmou.
Apesar do orgulho pelo percurso feito, Justino diz que o sonho ainda não está completo. Para ele, o verdadeiro desafio agora é transformar a identidade positiva do bairro em investimento real, serviços públicos e oportunidades concretas para os moradores.
“Assumi Namicopo quando ninguém queria. Hoje, as pessoas já normalizam. Mas ainda falta muito para termos o Namicopo que merecemos”, concluiu. Assane Júnior e redacção
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