OPINIÃO
Jornalismo ou ampliação de vozes?
Há uma pergunta incómoda que precisa de ser feita com honestidade: ainda temos jornalismo em Moçambique ou estamos apenas a assistir à ampliação de vozes poderosas?
A diferença entre as duas coisas parece simples, mas na prática tornou-se cada vez mais turva.
Jornalismo implica investigação, confronto de versões, verificação de factos e, sobretudo, coragem para perguntar aquilo que muitos preferem não ouvir. Ampliação de vozes, pelo contrário, limita-se a repetir declarações. O político fala. O jornalista grava. O microfone passa. A notícia nasce e morre ali mesmo, sem perguntas difíceis, sem contexto, sem contraditório.
E assim o que deveria ser informação transforma-se em eco.
Quem acompanha certos noticiários percebe rapidamente o padrão. Um dirigente aparece diante das câmaras, anuncia mais uma promessa, explica que os problemas estão a ser resolvidos, garante que o futuro será melhor. No dia seguinte, outro dirigente surge com outro discurso optimista. E o ciclo continua.
Mas raramente se pergunta o essencial.
O que foi feito da promessa anterior? Onde estão os resultados concretos? Quem responde quando os planos falham?
Quando essas perguntas desaparecem, o jornalismo perde a sua função social.
A imprensa não nasceu para servir de megafone ao poder. Nasceu precisamente para fazer o contrário: questionar o poder. Fiscalizar decisões públicas. Defender o direito do cidadão a saber o que realmente está a acontecer.
Quando os jornalistas abandonam essa missão, o espaço público empobrece.
O problema não é apenas profissional. É também político e social.
Num país onde muitas instituições ainda lutam para consolidar transparência e responsabilização, o papel da imprensa torna-se ainda mais decisivo. Se o jornalismo abdica da sua função crítica, quem fará as perguntas difíceis?
Nas redes sociais já vemos o resultado desse vazio.
Sem informação sólida, cresce o rumor. Sem investigação, cresce a especulação. Sem jornalismo independente, cresce a propaganda disfarçada de notícia.
O cidadão fica no meio de um barulho informativo onde é cada vez mais difícil distinguir factos de discursos.
Claro que o trabalho jornalístico não é fácil. Existem pressões políticas, económicas e até sociais. Há redacções com poucos recursos, jornalistas mal pagos e ambientes profissionais marcados por insegurança.
Mas precisamente por isso o debate precisa de ser feito com frontalidade.
Se o jornalismo aceitar transformar-se apenas numa plataforma de reprodução de discursos oficiais, estará a abdicar do seu papel histórico. E quando isso acontece, perde-se algo essencial para qualquer sociedade que deseja chamar-se democrática.
A pergunta, portanto, continua no ar.
Queremos jornalistas que façam perguntas difíceis ou apenas microfones que repitam frases bonitas?
Porque um país pode sobreviver sem propaganda elegante. Mas dificilmente sobrevive sem jornalismo verdadeiro. E mais não disse!
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