Connect with us

OPINIÃO

Há divisas ou não em moçambique?

Publicado há

aos

O debate sobre a existência ou não de divisas em Moçambique continua a levantar inquietações entre empresários, transportadores e cidadãos comuns. Enquanto o discurso oficial garante que o país não enfrenta uma crise de divisas, a realidade vivida por muitos agentes económicos parece contar uma história diferente.

Em Nampula, uma transportadora interprovincial, conhecida pelo esforço contínuo de renovação da sua frota, vive um cenário preocupante. A empresa, que durante anos importou autocarros da China para melhorar o transporte de passageiros, está há cerca de um ano sem conseguir adquirir novas viaturas. O motivo apresentado pelo banco onde mantém as suas contas é sempre o mesmo: “não há divisas disponíveis, o cliente está na lista de espera”.

A situação levanta inevitavelmente perguntas difíceis. Afinal, há ou não há dólares no sistema bancário nacional? Se existem, por que razão determinados sectores produtivos continuam bloqueados? E, se não existem, por que motivo o discurso oficial insiste em transmitir tranquilidade absoluta ao mercado?

Mais intrigante ainda é o facto de, paralelamente às explicações públicas, persistirem denúncias e suspeitas de “nhonguismo”, onde cidadãos afirmam existir circulação de dólares nos mercados informais, vendidos a taxas elevadas, enquanto empresários formais enfrentam longas filas de espera nos bancos comerciais. O sentimento que cresce entre muitos operadores económicos é de desigualdade no acesso às divisas.

O cidadão comum também questiona: como é possível que haja disponibilidade de moeda estrangeira para determinadas operações internas dos próprios bancos, pagamentos institucionais e benefícios administrativos, mas não para empresas que precisam importar bens essenciais para a economia? São dúvidas legítimas de quem vê o país a funcionar em dois ritmos diferentes — um oficial e outro real.

O problema vai além do simples acesso ao dólar. Quando uma transportadora deixa de renovar a sua frota, quem sofre primeiro é o povo. Sofre o passageiro que viaja em viaturas degradadas, sofre o comerciante que depende da circulação de pessoas e mercadorias, sofre a economia local, que perde competitividade. A falta de solução transforma-se num efeito em cadeia.

É verdade que o Governo tem vindo a público explicar a situação económica, apresentando justificações técnicas, dados e até exemplos concretos. Porém, para o cidadão, explicação sem solução imediata acaba por soar a discurso repetido. O povo não vive apenas de conferências de imprensa, gráficos e promessas de estabilidade financeira. O povo precisa de respostas práticas, medidas visíveis e soluções urgentes.

A confiança na economia não se constrói apenas com palavras; constrói-se quando o empresário consegue importar, quando o transportador consegue renovar a frota, quando o banco consegue responder ao cliente sem o colocar eternamente numa “lista de espera”.

Moçambique precisa de transparência no mercado cambial, equilíbrio no acesso às divisas e, sobretudo, mecanismos claros que combatam o desvio informal de moeda estrangeira. Porque, enquanto houver discursos de abundância e realidades de escassez, continuará a existir uma distância perigosa entre o país oficial e o país real.

E, no fim de tudo, quem continua a pagar a factura é sempre o cidadão comum.

 

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais Lidas