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OPINIÃO

Estrada de ouro e o asfalto desanimado

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Eram quatro da manhã e o frio de Nampula já me mordia os ossos. Estava lá, no meio daquela escuridão do terminal, a disputar um lugar no chapa. O motorista gritava, as pessoas empurravam, e eu só pensava: “Lá vamos nós”  Saímos com o sol a querer espreitar, mas a alegria acabou nos primeiros quilómetro. Aquela estrada, é um campo de batalha! Mal sais da cidade, o chapa começa a saltar como um cabrito doido! O primeiro buraco quase nos mandou para fora do banco. O motorista vira o volante com uma força que parece que está a lutar com um leão, tudo para fugir daquelas que mais parecem covas abertas à espera da gente.

Chegamos a Meconta e o cenário é de loucos. Mal o chapa abranda por causa dos buracos,as vendedoras de castanha atiram-se à carrinha. É um desespero! Elas correm no meio daquelas valas, com as bacias à cabeça, a gritar: “Castanha, patrão Castanha, mamã!”.

Dói ver aquilo: as mulheres a saltarem por cima das fendas do asfalto, quase a serem atropeladas porque o carro não consegue travar direito naquele chão todo comido. Tu queres comprar, mas o chapa dá um solavanco tão seco que a tua cabeça bate no teto e a castanha quase voa da mão da pobre senhora. É um caos de poeira vermelha, gritos e o cheiro da castanha assada misturado com o fumo do motor .

Depois de Meconta, o caminho para Namialo e Nacala vira um filme de terror. O asfalto desapareceu, deixou só umas “ilhas” pretas no meio de um mar de buracos profundos. A carrinha inclina-se tanto que eu seguro na porta com toda a força, a rezar para o ferro não partir. Os passageiros já nem reclamam, só soltam aquele iish…coletivo a cada pancada que nos mói a coluna. É uma vergonha! Uma estrada que liga o porto ao interior estar neste estado de abandono.

Namialo  o motorista tem de parar a carrinha, calcular o ângulo e usar a mesma faixa de rodagem do sentido contrario, favorecendo assim os acidentes de viação. A suspensão já entregou a alma ao criador há muitos quilómetros, e nós, lá dentro, somos sacudidos como pedras num balde.

Passando o cruzamento do Namialo, rumo a Monapo, a situação escala para o ridículo. A estrada transformou-se numa “peneira” de alcatrão podre.O chapa é forçado a abandonar a via e seguir pela berma, comendo poeira vermelha, porque as covas no centro da estrada têm dentes e cortam pneus como se fossem papel na antiga quinta das bananeira ( matanuska) e a estrada com remendos desajeitado e Arreia vermelha que serve pra sujar a estrada logo após a chuva. É um ziguezague desesperado o volante vira à esquerda, à direita, morde o mato, volta para a vala, e o corpo da gente acompanha esse balancé violento até os ossos estalarem.

Ao chegar a Nacala-a-Velha, a descida devia ser um alívio, mas é uma armadilha. As curvas estão mordidas nas pontas, o asfalto sumiu e restam apenas degraus de terra batida que fazem o chapa saltar com pancadas,

Quando finalmente avistamos o porto de Nacala, o sentimento não é de chegada, é de sobrevivência. mais uma vez a estrada de muchilipo até o cruzamento Fernão Veloso é uma vergonha total sem justificativa solida, deixar o ponto estrategicamente econômico, se degradando se roendo e ganhando uma erosão no meio da estrada. Atravessar estes pontos todos nestas condições é uma agressão física. É uma via vital para a economia, mas o que vemos é um rasto de abandono onde o asfalto morreu e os buracos agora mandam em quem passa. Chegamos moídos, cobertos de pó e com a alma revoltada por termos de pagar com a saúde o preço de uma estrada que já esta sumindo.

 

 

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1 Comment

1 Comment

  1. José Luzia

    Março 28, 2026 at 8:10 am

    E fica-me sempre mais uma pergunta: por que não há, pelo menos um comboio por dia, de ida e volta, entre Nampula e Nacala?
    Ou há e eu não sabia?

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