OPINIÃO
Estão a jorrar sangue, tal como foi prometido
Não se pode dizer que não fomos avisados. As palavras foram ditas ao microfone, diante do povo, câmaras ligadas, sorrisos no rosto dos camaradas e aplausos a encher o espaço. Com voz segura e peito erguido, o homem disse que, se fosse necessário, haveria de se jorrar sangue para defender a pátria. Palavras frias, ditas com calor partidário e agora, tristemente, em realidade.
Nas ruas da Matola, os homens armados aparecem do nada com um cenário de guerra urbana. Superintendentes da polícia abatidos com rajadas dignas de campo de batalha. Agentes da investigação criminal alvejados sem hipótese de defesa. Esta semana, mais uma vez, os tiros voltaram a acordar a cidade. Quatro corpos, diz-se. Talvez mais. O número é menos importante que o sinal: o sangue está a correr. E não é pouco.
A questão que deve incomodar a consciência nacional é simples: será que este sangue é o cumprimento daquela promessa?
Vivemos num país onde se confundem patriotismo com obediência cega, onde se disfarça autoritarismo com palavras de ordem, onde se ameaça em nome da estabilidade. As mortes destes homens e não nos esqueçamos, são homens, com famílias, com filhos, com sonhos não são meros incidentes isolados. São recados. São mensagens. São execuções com assinatura invisível.
Ninguém foi preso. Nenhum rosto apareceu para responder por tamanha ousadia. Nenhum comunicado explicou de forma convincente o que está a acontecer. O povo, mais uma vez, é deixado ao sabor do medo. O medo é, afinal, a arma mais eficaz do poder. O medo cala, paralisa, controla. E quando o sangue começa a jorrar com naturalidade, o medo já cumpriu a sua missão.
Mas há um detalhe que talvez o sistema tenha esquecido: o povo não é burro. O povo vê. O povo ouve. O povo liga os pontos. E mesmo quando se cala, guarda tudo. Há palavras que não se apagam. Há promessas que, uma vez cumpridas com sangue, deixam nódoas permanentes na memória colectiva. E uma delas foi dita em Cabo Delgado, numa manhã em que a retórica substituiu o bom senso. Desde então, o país nunca mais foi o mesmo.
Não se trata aqui de fazer acusações. Trata-se de perguntar o que todos pensam e poucos têm coragem de dizer: quem está a matar os nossos agentes? E porquê? O Estado perdeu o controlo? Ou controla tão bem que até escolhe quem deve cair?
A Constituição da República não prevê pena de morte. Mas na prática, há quem seja condenado à morte por saber demais, por estar no lugar errado, por representar ameaça aos intocáveis. Quando um agente de elite é abatido em plena rua, com dezenas de tiros, a mensagem é clara: não há segurança para ninguém, nem dentro do sistema.
Enquanto isso, o país afunda-se num silêncio institucional que dói mais do que os tiros. Porque o silêncio é escolha. E escolher calar diante do sangue é uma forma de pactuar com o derramamento.
Estão a jorrar sangue. E não, não é metáfora. Está mesmo a jorrar, em jactos, em rajadas, em poças vermelhas nas ruas da cidade. E como foi dito, foi prometido. A única pergunta que resta é: quanto mais sangue ainda será preciso para saciar a sede do poder?
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