OPINIÃO
Burla ou Roubo? O escândalo do rio Muecate e o silêncio das autoridades
Por Padre Jeremias do Rosário Augusto Manuel
No coração do distrito de Muecate, um cenário insólito e vergonhoso repete-se há cinco meses, sob o olhar cúmplice do silêncio institucional. Desde que o ciclone JUDE, nos dias 9 e 10 de março, destruiu a ponte sobre o rio Muecate, um grupo de indivíduos transformou a tragédia numa fonte de rendimento ilícito.
Primeiro vieram os canoeiros, oferecendo travessias improvisadas. Logo depois, surgiram outros mais “empreendedores”, que instalaram um pequeno tabuleiro de madeira – rudimentar, inseguro e provisório – e decidiram cobrar pela passagem. Os valores variam entre 25 e 200 meticais, dependendo da “negociação” com os utentes.
O que poderia ser visto como um gesto solidário para ajudar a comunidade, rapidamente se revelou um negócio privado em espaço público. E pior: sem qualquer regulamentação, fiscalização ou autorização visível.
No último domingo, 3 de agosto, a farsa atingiu um novo nível de abuso. A comitiva que acompanhava este cronista até à localidade de Napala-Matto, a 40 km da vila de Muecate, para cerimónias de batismos, foi retida na travessia. Animadores pastorais, devidamente identificados e já conhecidos dos operadores da ponte improvisada, foram obrigados a pagar 50 meticais para prosseguir viagem. Situação inédita, já que em ocasiões anteriores nunca tinham sido cobrados.
Na volta, decidi interpelar diretamente os responsáveis pelo bloqueio. A minha resposta foi imediata: telefonei ao Diretor Distrital de Infraestruturas, Sr. Vicente, alertando que aquele cenário não é apenas injusto – é roubo ou burla pura e simples à população. Disse-lhe, sem rodeios, que compete ao governo resolver a questão, expulsando os jovens oportunistas do local e garantindo condições mínimas para que as pessoas possam continuar a realizar as suas atividades.
Se, de facto, houve investimento privado na colocação daquela “ponteca”, que os seus autores apresentem contas ao governo, não aos cidadãos, que agora pagam diariamente por um acesso que deveria ser livre. Afinal, já lá vão cinco meses de cobranças abusivas. Quantas vezes terão recuperado, e multiplicado, o valor gasto?
A situação é ainda mais revoltante quando se sabe, por fontes internas da administração distrital, que havia uma solução técnica proposta pelo antigo administrador António Valério Nandanga. A ideia era simples: colocar cerca de mil sacos de saibro sobre o leito do rio para permitir, pelo menos, a passagem de viaturas ligeiras. Mas, segundo a mesma fonte, a proposta foi rejeitada pela “cúpula” local.
O que se passa em Muecate não é novidade. Ao longo dos últimos quatro anos, vi três administradores passarem pela vila, mas a realidade mantém-se imóvel. A impressão que fica é que certas forças locais não querem ver o distrito prosperar. Projetos são travados, ideias são minadas e a população continua a pagar o preço – neste caso, literalmente – para exercer o seu direito de mobilidade.
Enquanto isso, os “donos” da ponte improvisada continuam o seu negócio. E o governo distrital? Mantém-se silencioso. O povo de Muecate, resiliente por natureza, merece mais do que isso. Merece dignidade, soluções concretas e líderes que saibam estar à altura das suas responsabilidades.
No fim das contas, a pergunta permanece: até quando se vai tolerar este roubo a céu aberto?
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