OPINIÃO
Aquele cota é meu ATM
Vivemos tempos em que o amor parece ter perdido o endereço da alma. No lugar dos afectos sinceros, crescem relações de conveniência, regadas a dinheiro fácil e ambições apressadas.
Nos becos das cidades e nos corredores das escolas, ouve-se sem pudor a frase: “Aquele cota é meu ATM.” É uma expressão cruel e reveladora. Esta frase resume o retrato de uma juventude que confunde afecto com transacção e transforma o outro em objecto de consumo.
O fenómeno espalha-se como erva daninha. Meninas ainda adolescentes, as chamadas “catorzinhas”, envolvem-se com homens de idade suficiente para serem seus pais, às vezes, avôs em troca de telemóveis de último “grito”, roupas de marca, unhas de acrílico, passeios de carro e jantares em restaurantes.
Esses “cotas”, vaidosos e solitários, muitas vezes aceitam o papel de patrocinadores de ilusões, acreditando que compram amor, quando compram apenas companhia temporária. A relação é um contrato silencioso: ele paga, ela finge; e ambos fingem que há amor.
O problema é que esse jogo, além de degradar o sentido do amor, mina o tecido moral das famílias e das comunidades. As meninas aprendem cedo que o corpo é moeda; os homens reforçam a ideia de que o dinheiro é poder.
A consequência é uma sociedade que já não valoriza o esforço nem o carácter, mas o brilho momentâneo daquilo que se exibe. Quando o “cota” fica sem dinheiro, o amor evapora como perfume barato. A mesma boca que dizia “meu amor” passa a dizer “já não me serve; ele cheira na boa; não aguento ser usada; prefiro ficar do meu jeito, etc”.
As famílias, por sua vez, assistem a tudo com uma mistura de silêncio e conformismo. Há mães que, em segredo, encorajam as filhas a “arranjarem alguém que ajude”, porque a pobreza pesa e a vida é dura. E há pais que fingem não ver, desde que a menina volte para casa com sacos de compras.
A moral tornou-se líquida, como descreveu o sociólogo Zygmunt Bauman: tudo é efémero, tudo é substituível, até o amor. Vivemos numa sociedade descartável, onde as relações têm prazo de validade e o afecto se mede pelo valor do recibo.
Mas o drama vai mais fundo. Por detrás do materialismo há um vazio afectivo, uma carência de orientação moral e cultural. As redes sociais alimentam o espectáculo das aparências: fotos de viagens, mesas fartas, roupas de marca.
As meninas sonham com o luxo que veem no ecrã das TVs e Smartphones e buscam atalhos para alcançá-lo. O “cota” aparece então como escada. O problema é que toda escada usada para subir depressa também serve para cair com força. E, quando o brilho apaga, sobra a vergonha, o arrependimento e, por vezes, a gravidez precoce ou a doença venérea, a gonorreia, o HIV, Sífilis, etc. E agora?
É urgente recuperar o sentido ético do amor e da convivência. O amor verdadeiro não é contrato, é compromisso; não se compra, constrói-se. As famílias precisam voltar a educar pelo exemplo, e não pelo discurso. É preciso conversar sobre valores, dignidade e respeito mútuo, não apenas sobre sucesso material. As igrejas, escolas e meios de comunicação têm o dever de denunciar essa lógica perversa que transforma meninas em mercadorias e homens em carteiras ambulantes.
O país que queremos não pode continuar a trocar o futuro pelo prazer de um momento. É tempo de dizer às “catorzinhas” que a beleza de uma mulher não está no que recebe, mas no que se torna; e aos “cotas”, que dignidade não se compra, conquista-se. Quando o dinheiro acabar, o amor que for verdadeiro continuará; o resto é só vaidade embrulhada em perfume caro.
Em Nacala-Porto, uma adolescente de 16 anos envolveu-se com um funcionário público de 52. Recebia telemóveis e algum dinheiro “para as suas coisas”. Durante meses, era a mais admirada entre as amigas, até que o “cota” foi transferido para outra província.
O número dele mudou, e com ele, o “amor” desapareceu. Sem recursos e envergonhada, a menina abandonou a escola. Meses depois, foi vista a vender bolinhos no mercado Wajuma. Quando uma amiga lhe perguntou o que restava do antigo “amor”, respondeu, com um sorriso cansado: “Ficou a lição. Dinheiro compra lanche, não compra sentimento.” E mais não disse!
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