OPINIÃO
Amizades partidas por partidos
Em Angoche, o pôr-do-sol ainda é do mesmo laranja antigo. Mas, curiosamente, as pessoas deixaram de ser da mesma cor.
Não falo de pele, essa sempre foi plural e bonita.
Falo das cores inventadas pelos partidos, essas bandeiras que, de repente, começaram a valer mais que o nome de alguém.
Antes, João era só João: o vizinho que emprestava o machado, que ria alto, que dançava mal nas festas do bairro.
Hoje, João virou “aquele do partido X”.
E o riso dele, que antes era música, agora ecoa como ameaça.
A amizade ganhou etiqueta.
E etiqueta, como sabemos, costuma rasgar o coração em silêncio.
Nas esquinas onde se trocavam piadas e farinha emprestada, agora troca-se desconfiança.
Os cumprimentos perderam segundos, e segundos, às vezes, são a morte lenta de um vínculo.
Há famílias que já não almoçam como família, porque cada um passou a mastigar o mundo com o garfo do seu lado político.
E o silêncio… ah, o silêncio!
Esse sim virou militante.
É curioso: os partidos dizem lutar pelo povo, mas o povo, distraído, começou a lutar contra si mesmo.
Em Angoche, e em tantos outros cantos que parecem seus irmãos gémeos, há amizades penduradas no varal, secando ao sol como roupa esquecida.
Foram molhadas por palavras duras que nem precisavam ter sido ditas.
Porque ninguém muda o país bloqueando o primo no WhatsApp.
A política, no seu melhor, deveria ser ponte.
Mas por aqui, virou muro.
E muro, quando cresce demais, impede até que o vento passe, quanto mais o abraço.
O mais triste é que as pessoas já nem lembram como começou.
Só sabem que agora cada cor acha que a outra é inimiga.
Como se votar diferente fosse crime.
Como se pensar diferente fosse falha.
Como se amor tivesse partido.
E no entanto, olha o detalhe que ninguém vê, quando a doença chega, ninguém pergunta pela bandeira.
Quando falta pão, ninguém exige cartão de membro.
Quando a água não cai da torneira, o problema é igual para todos.
É nesses momentos que a vida lembra: somos do mesmo lado, mesmo quando fingimos não ser.
Talvez um dia Angoche volte a ser aquela cidade onde os nomes valem mais que os logotipos.
Onde alguém diga “esse é meu amigo” sem precisar acrescentar “…apesar do partido”.
Onde conversar seja mais bonito que convencer.
Onde a diferença seja riqueza, não sentença.
Porque, no fim, a terra onde enterramos os nossos mortos não tem cores partidárias.
E o futuro que deixamos aos nossos filhos também não.
Só tem uma pergunta simples, quase infantil:
Vale mesmo a pena perder pessoas por causa de bandeiras que nunca nos conheceram pelo nome?
Se a resposta for “não”, então talvez ainda haja cura.
E essa cura começa no gesto mais revolucionário de todos:
Cumprimentar quem pensa diferente e continuar a chamar pelo nome.
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