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SOCIEDADE

Sobrevivem a engraxar sapatos: histórias de luta nas ruas de Nampula

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Numa altura em que o desemprego e as dificuldades económicas continuam a marcar a vida de muitos cidadãos em Nampula, há homens que encontraram no engraxar de sapatos uma forma de sobrevivência. Nas ruas da cidade, estes trabalhadores transformam o brilho dos sapatos em sustento diário, garantindo o pão de cada dia para as suas famílias e evidenciando o papel dos pequenos ofícios na economia local.

Espalhados por diferentes pontos da cidade, dedicam-se diariamente a esta actividade, enfrentando uma clientela variada e uma concorrência constante. Cada um procura garantir o seu espaço e conquistar a confiança dos clientes, muitos dos quais valorizam o cuidado e a atenção prestados no serviço.

Um dos exemplos é Assuate Ali, de aproximadamente 40 anos de idade, que há cerca de 26 anos vive desta actividade. Conta que foi através deste trabalho que conseguiu sustentar a sua vida e a sua família.

“Eu comecei em 2000. É este trabalho que me dá de comer e permite estudar os meus filhos. Eu dependo daqui. Já vendia sapatos e engraxava, comecei bem e até hoje continuo”, disse.

Apesar da longa experiência, Assuate afirma que ainda enfrenta dificuldades sociais, sobretudo relacionadas com a falta de habitação e a impossibilidade de expandir o seu negócio.

“Não fiz algo de grande com esse trabalho, só consigo pôr pão na mesa e vestir as minhas filhas. Eu queria pedir ajuda para fazer este trabalho crescer”, lamentou.

Entre os clientes que valorizam o seu serviço está Sérgio Shuni, funcionário público que há cerca de um ano confia o cuidado dos seus sapatos ao engraxador.

“Há outros engraxadores na cidade, mas, para mim, ele é o melhor. Cuida muito bem dos sapatos e tem atenção à tonalidade. Por isso prefiro continuar com ele”, afirmou.

Na avenida Josina Machel, próximo ao conhecido prédio branco, encontra-se Bachir António, engraxador há seis anos, casado e pai de três filhos. Relata que o trabalho mudou a sua vida, embora ainda enfrente dificuldades financeiras.

“Comecei em 2019 e, aos poucos, este trabalho tem-me ajudado. Hoje consigo sustentar-me e também apoiar os estudos do meu filho”, disse.

Bachir deixa ainda um conselho aos jovens sem ocupação, incentivando-os a apostarem na iniciativa e na inovação. “Quem não tem o que fazer deve procurar algo para se sustentar e aprender com o que os outros fazem”, aconselhou.

Wampili Amido, outro engraxador, actua há cerca de um ano entre o Mercado Central e o Mercado Novo. Conta que encontrou no engraxar de sapatos uma forma de sair da ociosidade e garantir algum sustento diário.

Segundo relatou, iniciou a actividade por incentivo de um tio, numa altura em que permanecia em casa sem ocupação. “Eu estava sentado em casa, sem nada para fazer, e ele deixou-me aqui a engraxar sapatos e a cozer”, explicou.

Apesar das dificuldades na captação de clientes, Wampili afirma que a actividade lhe permite assegurar o básico para a sua sobrevivência. “Ainda não consegui muitos clientes, mas consigo o pão de cada dia”, disse.

O jovem acrescenta que prefere trabalhar a permanecer sem ocupação, sublinhando que a inactividade pode gerar desconfiança social.

“Gosto do que faço, porque estou a evitar roubar. Estar sentado em casa leva a muita desconfiança; tudo o que se perde, és logo acusado”, afirmou.

Por sua vez, um dos clientes entrevistados pelo Rigor, Zacarías António, defende a necessidade de maior apoio aos engraxadores de sapatos, sublinhando que a actividade, por si só, não garante rendimentos suficientes para uma vida digna.

Engraxador atende cliente numa das ruas da cidade de Nampula, onde a actividade garante sustento diário a vários trabalhadores informais.

“Sabem, eles precisam de uma ajuda, precisam de uma grande ajuda. Aquilo que conseguem é apenas para sobreviver”, afirmou, destacando a fragilidade económica deste trabalho informal.

Também Lázaro Rosca destacou a importância social desta actividade, defendendo que o engraxar de sapatos desempenha um papel relevante na ocupação dos jovens e na prevenção de comportamentos desviantes.

Segundo explicou, o trabalho desenvolvido por estes profissionais contribui directamente para o sustento das suas famílias e ajuda a afastá-los da ociosidade e de possíveis práticas de criminalidade.

“Eu apoio esse senhor pelo trabalho que ele faz diariamente para sustentar a sua família e evitar que esteja em casa a roubar”, disse.

Lázaro Rosca apelou ainda para que os jovens procurem alternativas de ocupação e não permaneçam inactivos nos bairros.

“Sentar no bairro não é solução. O essencial é procurar uma actividade produtiva. Pode não ser esta, mas há várias formas de garantir o sustento diário”, concluiu.

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