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OPINIÃO

Quando a fé morre na porta da Igreja

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Vivemos num tempo estranho, em que a fé virou adereço, frase feita, fotografia de domingo nas redes sociais e ruído de louvor que não entra na alma. As igrejas estão cheias, mas a vida está vazia. As mãos levantam-se nos cultos, mas não se estendem para ajudar o próximo. As bocas recitam versículos, mas o coração permanece duro como tronco seco na mata.

Em Moçambique, como noutras partes do mundo, multiplicam-se denominações, templos, pastores, profetas, líderes espirituais e promessas de milagres. Mas, paradoxalmente, cresce também a criminalidade, a corrupção, a violência doméstica, a “nudez” que se partilha à velocidade de dados móveis, a infidelidade tornada normal e a desconfiança que invade famílias, escolas, bairros e instituições.

A fé superficial tornou-se moda. A religiosidade é o uniforme social. Mas a alma continua nua.

As pessoas gostam de usar Deus como talismã, mas não como guia. Gostam de ouvir sermões, mas não de converter o coração. Gostam de rezas rápidas, mas não de transformações profundas. E, enquanto isso, o tecido moral deteriora-se como estrada rural em época chuvosa: cada gota de incoerência abre um buraco mais fundo.

É impressionante observar como muitos que passam horas ajoelhados são os mesmos que mentem no mercado, seduzem colegas alheios, desviam fundos públicos, partilham boatos no WhatsApp, humilham os mais fracos, pedem “taxa extra” para fazer serviços públicos e trocam a dignidade por trocados. A fé virou espetáculo, não caminho. Performance, não compromisso. Etiqueta, não essência.

E quando a fé não atinge a alma, toda a sociedade paga a factura: pagamos nos hospitais cheios de feridos da violência; nas cadeias lotadas; nos casamentos destruídos; nos jovens perdidos; nas crianças abusadas; nos funcionários públicos corruptíveis; nos líderes sem integridade; nos “famosos de internet” sem carácter; nos bairros onde o medo chega antes do amanhecer.

A fé verdadeira não é grito, não é roupa, não é slogan. A fé verdadeira é transformação, silenciosa, difícil, quotidiana. É aquilo que se faz quando ninguém está a ver.

Precisamos de um país onde a espiritualidade deixe de ser capa e se torne raiz. Onde a religião não produza actores, mas seres humanos comprometidos com a verdade, a justiça e a solidariedade. Onde o nome de Deus não seja muleta para encobrir a vida torta.

O problema não é Deus. O problema não é a Igreja. O problema é a distância entre o que dizemos crer e o que realmente vivemos.

No bairro de Namikhopo, em Nampula, havia um homem muito conhecido pela sua assiduidade na igreja. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Trazia a Bíblia debaixo do braço e conhecia versículos de cor. Contudo, era ele quem cobrava “gasosa” para agilizar processos no posto administrativo, quem se envolvia com mulheres casadas e quem espalhava fofocas para destruir reputações.

Um dia, durante uma formação comunitária sobre ética, uma adolescente perguntou: “Tio, como é que o senhor ora tanto e ainda assim faz coisas que até os pagãos evitam?”

O homem não respondeu. Baixou os olhos. E, pela primeira vez, percebeu que a sua fé nunca tinha saído da boca para entrar no coração. E mais não disse!

 

 

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