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OPINIÃO

A hipocrisia do tio Paito

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Há pessoas que passam a vida a construir um teatro tão perfeito que, por instantes, parecem viver a própria peça. Assim era o tio Paito, um homem de fala mansa, sorriso fácil e roupa sempre engomada, que gostava de ser chamado de “respeitável cidadão”. Na vila, todos o conheciam: uns pela astúcia, outros pela aparência. Mas poucos sabiam o tamanho do labirinto que ele mesmo cavara com as próprias mãos.

O tio Paito era desses que acreditavam que a vida se sustenta com pequenas mentiras, como se o engano fosse cimento e o disfarce, tijolo. Tinha três bilhetes de identidade, um para cada vida que inventara.

Com um nome, era funcionário público; com outro, era comerciante; com o terceiro, apenas um homem comum, pai de família. E, curiosamente, cada uma das suas mulheres conhecia um “Paito diferente”: o trabalhador exemplar, o viajante ocupado e o bom samaritano que “ajuda crianças carentes” (que, na verdade, eram os próprios filhos que ele escondia do resto do mundo).

A farsa durou anos. Com o tempo, os filhos cresceram, cada um com um apelido, uma data de nascimento e uma história de origem que não encaixava em lugar nenhum. Quando o tio Paito morreu, foi como se a mentira dele também tivesse expirado. No cemitério, três mulheres vestidas de preto se olharam com ódio, confusão e dor. Cada uma dizia ser a verdadeira viúva. Cada filho trazia um bilhete de identidade diferente, todos com o mesmo rosto do pai, mas com nomes, datas e números que o Estado nunca reconheceria.

Foi aí que a hipocrisia do tio Paito revelou a sua verdadeira herança: o vazio. Nenhum filho herdou nada, porque, legalmente, nenhum deles existia com ligação provada ao falecido. O património ficou retido, a família dividiu-se, e a memória dele dissolveu-se como papel molhado na lama. A casa bonita que ele ergueu com tanto segredo agora serve de abrigo a ratos e ervas daninhas.

O caso do tio Paito é mais do que uma história de vilania doméstica; é o retrato fiel de uma doença social que corrói silenciosamente as famílias moçambicanas, a mentira institucionalizada. Vivemos num país onde muitos ainda acreditam que se pode viver à sombra da verdade, fabricando nomes, datas, papéis e famílias, como se a identidade fosse uma vestimenta que se troca conforme o clima.

Mas a hipocrisia cobra caro. Custa confiança, destrói lares e apaga linhagens inteiras. Os filhos crescem sem saber quem realmente são, as mulheres vivem com vergonha e o Estado perde o rasto da verdade. É uma cadeia de falsidades que começa na omissão e termina na tragédia.

No fundo, a história do tio Paito é um grito de alerta: quem vive de mentiras morre sem deixar nome. E quem constrói a vida com engano cava, sem saber, a cova do esquecimento.

No distrito de Ribaue, em Nampula, foi relatado um caso semelhante: um homem que, durante mais de vinte anos, manteve três famílias diferentes, usando documentos falsos para ocultar a sua identidade. Quando faleceu, os três grupos de filhos apresentaram bilhetes distintos, impossibilitando a verificação de paternidade e o acesso à herança. O caso terminou nos tribunais, e o processo foi arquivado por falta de provas documentais autênticas. As famílias continuam em conflito, e o nome do homem tornou-se sinónimo de engano, um “tio Paito” moderno.

Portanto, a verdade é o único documento que nunca expira. É preciso abandonar a cultura da mentira, reforçar a importância do registo civil, da transparência e da honestidade familiar. Só assim poderemos construir uma sociedade de confiança, onde o nome de um homem valha mais que o número no seu bilhete. E mais não disse!

 

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