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OPINIÃO

A esperança nas estradas de terra

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As estradas que levam aos distritos de Mecubúri, Muecate, Moma e Lalaua são feridas abertas no corpo da terra. Vermelhas, poeirentas e cansadas, elas respiram o sofrimento de um povo que caminha entre a promessa e o esquecimento. São caminhos que se desmancham com a primeira chuva, como se a própria natureza chorasse pela falta de alcatrão e pelas pontes que o tempo nunca trouxe.

Na época seca, os carros ainda se arriscam. Camiões carregados de mantimentos e sonhos rasgam o pó com lentidão. O motor geme, o ferro range, mas o povo segue, porque há feiras para alcançar, doentes para levar ao hospital, filhos para enviar à escola. Porém, quando o céu escurece e as nuvens se desatam em rios, as estradas tornam-se prisões.

Nas cheias, muitos rios de Mecubúri incham, rebentam as vias de acesso e cortam a passagem. O Muecate transforma-se num espelho largo onde apenas os peixes transitam, enquanto os transeuntes são burlados por facilitadores que improvisam pontes de pau-a-pique. Em Lalaua, o povo aprende a esperar. Longe da capital provincial e longe dos benefícios Estatais. Esperar que a água baixe, que o transporte volte, que a vida recomece. Em Moma, as estradas de matope são um verdadeiro calvário rodoviário. Com pontes improvisadas com troncos, os momenses viajam com coração carregado de orações e coragem.

Há dias em que os enfermos morrem do outro lado do rio, porque o barco não chegou. Há crianças que perdem as aulas, mulheres que dão à luz na lama, velhos que ficam à beira do caminho olhando o horizonte como quem espera um milagre que não vem.

O Governo promete alcatrão e travessias seguras, mas a poeira continua a ser o pão diário. As estradas são testemunhas silenciosas da desigualdade e da resistência. Elas contam a história de um país que ainda caminha descalço sobre os seus próprios sonhos.

E, no entanto, há sempre uma teimosia bonita neste povo: a de continuar a caminhar mesmo quando a estrada desaparece. A esperança aqui não viaja de automóvel, anda a pé, descalça, suja de barro, mas firme.

Em Abril, último, viajei a Memba. Pelo caminho, encontrei a Rosa, uma professora primária que, na época chuvosa, atravessa o rio segurando os cadernos dentro de um saco de plástico. Disse-me, sorrindo: “Se eu faltar, quem lhes ensinará a ler o mundo?” E continuou o caminho, molhada até à cintura, mas inteira na sua missão. A estrada estava alagada, mas o futuro, naquele instante, parecia ter encontrado uma ponte, feita de coragem e esperança. E mais não disse!

 

 

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