OPINIÃO
O Combustível Mais Amigo do Ambiente no Contexto de Moçambique
Em Moçambique, onde a maioria das famílias ainda cozinha com lenha ou carvão vegetal, a transição para combustíveis mais limpos é uma necessidade urgente tanto para a saúde pública como para a conservação ambiental. Segundo o relatório eCooking Market Assessment da Modern Energy Cooking Services (MECS, 2022), 71,2 % da população moçambicana utilizava biomassa sólida para cozinhar — 91,8 % nas zonas rurais e 33,7 % nas urbanas. Essa dependência da lenha e do carvão tem implicações graves: desflorestação acelerada, emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e poluentes como o black carbon, além de impacto directo na qualidade do ar interior e no tempo de recolha de combustíveis pelas mulheres.
A matriz energética e de combustíveis de cozinha em Moçambique ainda está em fase de transformação. Conforme o relatório National Energy Compact for Mozambique do Banco Mundial (World Bank, 2023), apenas cerca de 17 % dos lares tinham acesso a soluções de cozinha limpa, com a meta de subir para 54 % até 2030. Assim, surge a pergunta: Qual combustível é mais amigo do ambiente no contexto moçambicano?
A literatura aponta que a electricidade renovável aplicada à cozinha (eCooking) se destaca como opção com excelentes indicadores ambientais: baixas emissões durante o ciclo de vida, eliminação da queima directa de biomassa e co-benefícios de saúde. No relatório da MECS (2022), lê-se que “o tarifário de electricidade em Moçambique (US$ 0,10/kWh regular; US$ 0,02/kWh até 100 kWh/mês) torna o eCooking já a opção mais acessível em algumas zonas urbanas” (p. 14). Contudo, esse potencial enfrenta desafios: apenas 34 % da população estava ligada à rede em 2020, com elevada concentração urbana, enquanto nas zonas rurais o acesso era muito mais baixo (MECS, 2022).
Outra alternativa relevante é o gás liquefeito de petróleo (GLP). A Estratégia de Biomassa de Moçambique elaborada pela União Europeia e pelo Ministério da Energia e Recursos Minerais já em 2013 sugeria a “promoção selectiva do GLP em ambientes adequados” como forma de reduzir a pressão sobre os recursos florestais (European Union Energy Initiative Partnership Dialogue Facility [EUEI PDF], 2013). O GLP oferece ganhos de curto prazo: menor poluição interior, redução de fumos e diminuição da colheita de lenha e carvão. No entanto, continua sendo um combustível fóssil e depende de cadeias de abastecimento, o que limita o seu carácter de longo prazo como “solução verde”.
O biogás e o etanol sustentável também aparecem na literatura como opções promissoras, particularmente para contextos rurais ou periurbanos onde haja resíduos agrícolas ou orgânicos suficientes para alimentar sistemas de digestão ou para produção de biocombustíveis (Schmidiger, 2024). No entanto, há menos investigação específica para Moçambique comparada à electricidade e ao GLP.
Em termos de hierarquia ambiental para Moçambique, com base nas evidências disponíveis, pode-se sugerir que:
- Electricidade renovável para cozinha (eCooking) — melhor opção ambiental possível, especialmente em zonas urbanas ou conectadas à rede confiável (World Bank, 2023).
- Biogás e etanol sustentável — boas alternativas em contextos com infra-estrutura ou feedstock disponível (Schmidiger, 2024).
- GLP — opção de transição importante para reduzir rapidamente danos à saúde e ao ambiente onde redes eléctricas ou biocombustíveis ainda não estão disponíveis (EUEI PDF, 2013).
- Biomassa tradicional (lenha/carvão) — deve ser substituída, pois apresenta os piores indicadores ambientais e de saúde (MECS, 2022).
Para Moçambique, os principais condicionantes são: expansão da rede eléctrica e melhoria da sua confiabilidade; tarifas que permitam viabilidade para o eCooking; investimentos em cadeias de abastecimento de GLP, etanol ou biogás; políticas nacionais e regulação que promovam cozinha limpa como parte integrante da estratégia de energia; e sensibilização para mudança de comportamento. Como enfatizam Broto, Baptista, e Kirshner (2018), “os desafios de acesso à energia em Moçambique são tanto tecnológicos como institucionais, pois a transição energética não ocorre apenas por tecnologia, mas pela intersecção de participação social, infra-estrutura e políticas públicas” (p. 552).
Em suma, no contexto moçambicano, o combustível “mais amigo do ambiente” depende muito do cenário local — urbano ou rural, cobertura eléctrica, mercado de combustíveis e capacidades domésticas. Se o país conseguir acelerar a rede eléctrica renovável e tornar o eCooking uma realidade acessível, essa poderá ser a melhor opção de longo prazo. Enquanto isso, soluções de transição como o GLP podem aliviar efeitos negativos imediatos. O elemento decisivo será a coerência política, o financiamento sustentável e a inclusão social, para garantir que a energia moderna para cozinhar não fique restrita a poucos.
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