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OPINIÃO

A Inocência é Privilégio dos Ricos, a Culpa é Herança dos Pobres

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A justiça neste país perdeu a bússola. Ela não mede ações, mede posses. Não julga fatos, julga quem tem dinheiro, quem tem influência, quem conhece o caminho do poder. A inocência virou luxo; a culpa, uma maldição que se passa de pais para filhos.

Olhe para os bairros pobres: crianças sem escolas decentes, jovens sem oportunidades, adultos sem proteção. Ali, a lei não investiga, acusa. Um minino que corre atrás de uma bola é ladrão em potencial. Uma mãe que tenta defender o filho é insurgente. Um trabalhador que levanta a voz é perturbador da ordem. A pobreza é crime antecipado. A miséria é sentença. Ninguém nasce inocente se nasce pobre.

Enquanto isso, nos bairros altos e escritórios reluzentes, o crime é disfarçado de sucesso. O magnata que desvia milhões sorri para a câmera. O político que engana o Estado é ovacionado pelos seus pares. O herdeiro que atropela e mata é “vítima de acidente”. A culpa não existe para quem tem dinheiro; existe apenas para quem não tem voz. Aqui, o poder compra absolvição, o ouro compra indulgência, o sobrenome compra inocência.

Em Moçambique, essa injustiça não é abstrata. É visível nos tribunais que soltam os culpados poderosos e prendem os pobres sem provas. É visível nos escândalos de corrupção engavetados enquanto jovens e trabalhadores são presos por dívidas de poucos meticais. É visível nas mortes policiais não investigadas, nos abusos das autoridades que nunca respondem à lei, nos gestores públicos que saqueiam recursos do Estado e seguem intactos. A culpa, para os pobres, é herança. A inocência, para os ricos, é moeda corrente.

A sociedade aprendeu a aceitar essa divisão. Aprende-se cedo que questionar é perigoso, que denunciar é inútil, que resistir é impossível. Aprende-se que a justiça só serve a quem tem dinheiro, quem tem influência, quem sabe navegar os corredores do poder. O pobre aprende a calar, o rico aprende a sorrir. A lei tornou-se teatro, a justiça tornou-se farsa, e a verdade, um luxo que poucos podem ostentar.

Mas essa herança de culpa não é eterna. Ela cria consciência. O povo que sofre começa a perceber que foi enganado, que sua pobreza é estruturada, que sua inocência lhe foi roubada. E quando essa consciência amadurece, a revolta se forma. A revolta de quem entende que não nasceu para ser culpado, mas para ser humano. A revolta de quem exige direito, igualdade e justiça.

Enquanto isso não acontecer, enquanto a lei continuar cega para os poderosos e perspicaz para os pobres, não haverá justiça. O crime continuará a ser premiado e a miséria punida. A inocência só será universal quando a culpa deixar de ser patrimônio dos pobres e privilégio dos ricos.

A lei que protege o rico e condena o pobre não é lei: é instrumento de opressão. A inocência não deve ser luxo, e a culpa não deve ser legado. Até que isso mude, a balança continuará inclinada, o pobre continuará sofrendo e o rico continuará rindo.

 

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