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Jaleia em Meconta: “Sou fruto da formação online e discordo dos que pensam que um professor formado online não possa ser responsável.”

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Numa palestra de uma hora e 19 minutos, o jovem professor Atanásio Luciano José Lequissitela Jaleia, de 23 anos, assumiu-se em Meconta, província de Nampula, como “fruto do ensino online” e aproveitou o evento organizado no âmbito das celebrações do Dia do Professor, que se assinala a 12 de Outubro (próximo domingo), para contrariar a ideia de que quem se formou à distância é menos comprometido. Diante do preconceito, afirmou: “Sou fruto da formação online e discordo dos que pensam que um professor formado online não possa ser responsável. A responsabilidade, a determinação, o empenho e o foco são individuais.”

Sem esconder lacunas do modelo remoto, Jaleia foi directo: “Eu nunca tive interacção com os meus professores durante o percurso da formação. Eu nunca tive um estágio directamente ligado aos meus alunos.” A solução, disse, passou por assumir autonomia profissional: “O resto você tinha de se reinventar.”

O orador rejeitou o estigma de irresponsabilidade associado às turmas formadas online: “Há quem diz que uma formação online, um professor formado online, pode não ser responsável nas actividades que lhe são incumbidas. Mas eu discordo e eu vou dizer que a responsabilidade, a determinação, o empenho, o foco é individual.” Para Jaleia, o valor do docente mede-se pelas escolhas diárias: “Se nós queremos ter o nosso bom nome de um bom profissional, nós criaremos.”

Formado no advento da covid-19, no Centro de Formação de Professores de Quelimane, Jaleia, docente de nível N4, foi convidado especial pelo administrador de Meconta, Orlando Pedro Muaevano, que afirmou pretender resgatar os valores da educação no distrito, ao estilo do que é praticado pelo jovem professor.

Reinvenção e método criativo

O administrador de Meconta, Orlando Pedro Muaevano, segura a mão do jovem professor Atanásio Jaleia, convidado especial das celebrações do Dia do Professor no distrito

No início da carreira, em Luabo, província da Zambézia, enfrentou barreiras linguísticas e o fraco desempenho dos alunos. Foi nesse contexto que decidiu reinventar-se como educador, recorrendo à música e à dança como ferramentas pedagógicas. “Eu nunca cantei, nunca dancei. Mas se eu queria um bom desempenho, eu tinha de fazer.” Criou canções educativas como “Olha Quem Chegou” e outra sobre os seres vivos, para facilitar a memorização.

Logo no primeiro contacto com as turmas, mudou a estratégia: “Decidi transformar as minhas dificuldades em oportunidades.” Trouxe a prática para a sala de aula: “A aprendizagem é mais fácil, mais simples, menos trabalhosa, sendo prática.”

Segundo garante, esta abordagem não diminui a autoridade do professor,  pelo contrário, amplia o respeito: “Não precisam de um professor rigoroso, nervoso, sério…” O que as crianças precisam, disse, é de motivação e empatia: “Quando estou na escola, a primeira coisa que faço é deixar a minha capa de professor de lado. E ser humano.”

Educação como prática e motivação

Jaleia desafiou os colegas a não ficarem presos à teoria: “A aprendizagem é mais fácil, mais simples e menos trabalhosa sendo prática. Veja, falar de plantas cultivadas e espontâneas na sala não faz sentido quando lá fora temos árvores.” Para ele, o segredo é simplificar a vida do aluno e do professor, vencendo o medo de inovar.

Empatia e respeito

O jovem professor defendeu que a docência deve ser exercida com humanidade. Recordou experiências marcantes, como a noite em que dormiu no chão da casa de um aluno, em condições precárias, o que o levou a reflectir sobre a realidade dos estudantes. “A minha maior motivação são os meus alunos, a minha maior felicidade é o sorriso deles.”

 Combate ao abandono escolar

Segundo Jaleia, compreender o contexto social é essencial. Muitos alunos faltavam por fome ou por terem de ajudar os pais na pesca e na machamba. Para reverter a desistência e o casamento prematuro, decidiu usar a sua plataforma “Professor Jaleia” para mobilizar apoios. Já garantiu mochilas, calçados e material escolar para crianças e famílias inteiras, através de doações nacionais e internacionais.

Reconhecimento e impacto

Apesar das críticas iniciais, a sua metodologia ganhou notoriedade. Vídeos das suas aulas viralizaram nas redes sociais e atraíram atenção de órgãos de comunicação e até de membros do Governo. Antes anónimo, passou a ser convidado para entrevistas e recebeu apoios inesperados, incluindo o financiamento de uma moto por uma benfeitora espanhola e donativos de vários países.

Amor ao trabalho como essência

Emocionado, Jaleia disse que o segredo da sua caminhada é simples: “Tudo resume-se em amor. Amor é sinónimo de Deus. Não olhemos para os alunos como máquinas, mas como pessoas que querem aprender e crescer.” E deixou uma mensagem clara: “Direitos são direitos e devem ser respeitados, mas reclamemos trabalhando.”

Conclusão inspiradora

Encerrando a palestra, sublinhou que nunca sonhou ser docente, mas encontrou na profissão a oportunidade de inspirar outros jovens: “Aqui, eu tenho o direito de determinar o tipo de professor que quero ser.” Entre aplausos, apelou à dedicação, humildade e amor como fundamentos da educação. Faizal Raimo

 

 

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