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OPINIÃO

Em que país vivemos?

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Afinal, em que país vivemos? Vivemos num país onde a modernidade chegou pela metade. Todos carregam um telemóvel no bolso, mas poucos têm energia eléctrica estável para carregá-lo. Nas cidades, os cabos cruzam-se pelas ruas como se fossem raízes de uma árvore desordenada, mas nas aldeias ainda há famílias que nunca viram a luz eléctrica dentro de casa. A internet tornou-se uma nova praça pública, mas também um campo minado: quando a crítica incomoda, basta um clique para transformar vozes em silêncio. É a terra onde acidentes são filmados e partilhadas como espectáculo. Em vez de estender a mão a quem cai, alguém prefere estender o braço para segurar o telefone. O sofrimento virou conteúdo, e a desgraça tornou-se entretenimento.

Vivemos num país onde a juventude já não debate sonhos ou ideologias. O novo campo de batalha é o número de seguidores, o preço de um like, a glória de uma partilha viral. Ser popular importa mais do que ser consciente. O discurso político migrou para os grupos de WhatsApp, onde a propaganda fala mais alto que a razão. A mentira corre com uma velocidade assustadora, e a verdade, quando finalmente aparece, chega tarde, cansada e quase sempre ignorada. Hoje, mais vale uma boa mentira que emocione do que uma verdade que incomode.

Vivemos num país onde o futuro, esse pedaço de esperança, foi terceirizado para fora. Cada família sonha com alguém que parta, que atravesse fronteiras, que consiga, mesmo em terras estranhas, um pedaço de dignidade. A juventude que devia sonhar em transformar a pátria sonha, na verdade, em fugir dela. Em muitos lares, as maiores conquistas são as fotografias enviadas do estrangeiro ou a remessa mensal que sustenta quem ficou. E assim, o país esvazia-se da sua própria força.

Em que país vivemos, se a cultura perdeu espaço para a cópia? O batuque que fazia o corpo estremecer foi substituído pelo som industrial do amapiano. A sabedoria dos mais velhos, que era escola de vida, virou piada em memes de domingo. A tradição, que devia ser orgulho e raiz, dissolve-se lentamente numa sociedade que prefere imitar do que criar. A nossa identidade corre o risco de ser uma sombra de outras terras, esquecendo que a riqueza da diversidade cultural está na autenticidade.

Vivemos num país onde a violência deixou de chocar. O som das balas já não é susto, mas música de fundo em alguns bairros. O noticiário transformou homicídios em notas de rodapé. Crianças desaparecem, e as buscas duram menos que a paciência dos que governam. Famílias gritam por justiça, mas encontram apenas paredes frias e portas fechadas. Aprendemos a viver com medo, mas pior ainda: aprendemos a normalizar o medo. A indiferença tornou-se a maior doença. Hoje, vê-se a dor do outro, mas passa-se adiante como se fosse apenas mais um detalhe da paisagem.

Vivemos num país onde a saúde é promessa e a escola é esperança adiada. Hospitais onde faltam remédios, médicos e até camas. Escolas onde faltam professores, carteiras e, muitas vezes, até o tecto. Num país que se orgulha de ter milhares de jovens, a educação deveria ser a maior prioridade. Mas o que se vê são sonhos interrompidos pela pobreza, pelo casamento precoce, pela falta de transporte, pela fome que rouba a concentração antes da primeira lição.

Mas, curiosamente, vivemos também num país onde ainda se sorri. Onde há quem invente música até no meio do luto, quem improvise soluções quando todos os caminhos parecem bloqueados, quem faça da criatividade uma forma de sobreviver. Um país onde o futebol une até os rivais mais amargos, onde o humor é arma contra a tristeza, onde a resiliência é a maior riqueza escondida em cada esquina. Este é o contraste: tão rico em talento e imaginação, tão pobre em oportunidades e justiça.

A pergunta “em que país vivemos?” Porque vivemos, afinal, naquele país que nós mesmos permitimos que floresça ou apodreça. Somos cúmplices da acomodação quando preferimos calar. Somos sementes da mudança quando ousamos erguer a voz.

Se o presente nos parece desconfortável, talvez seja porque ainda temos medo de redesenhar o futuro. Mas não há como fugir:  ou continuaremos a viver num país onde ninguém sabe dizer em que país vive.

 

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