OPINIÃO
Um olhar à questão da moçambicanidade na perspectiva filosófica
Na celebração dos cinquenta anos da independência de Moçambique e trinta anos de caminhada “democrática”, os debates se resumem ao problema das liberdades, da urgência na inclusão da juventude na vivência da democracia e do futuro do país.
Não menos importante, os jovens clamam por uma nação na qual há espaço para todos.
As manifestações de 2024 e 2025 desmitificaram as narrativas ideológicas e partidárias. Os manifestantes apresentaram a nova forma de viver a moçambicanidade: “vinho novo em odres novos”.
É nesse âmbito que aparece a filosofia para oferecer alguns caminhos que podem ajudar na reflexão para que o país supere as dicotomias.
A primeira indagação é: iremos jogar fora o vinho velho porque não queremos usar os odres velhos ou colocaremos “o vinho velho em odres velhos”?
A segunda questão é: queremos uma transição geracional radical ou uma continuidade e descontinuidade dos libertadores aos “neo-libertadores”?
Terceiro ponto: será que há vontade política para que se apliquem as inovações próprias da globalização e da era da inteligência artificial em prol do bem comum, visando alcançar o bem-estar do povo moçambicano?
Quarta questão: ao iniciar hoje, dia 10 de setembro, a etapa de auscultação pública nacional no âmbito do diálogo político para a pacificação do país, que inclui um novo modelo eleitoral e a revisão da Constituição, será que os atores políticos, os tais libertadores, os detentores das riquezas e do poder estão preparados para partilhar com os outros que não sejam da mesma cor partidária ou grupo étnico?
Nos vários fóruns dos intelectuais e populares, quais são as expectativas desse processo de auscultação pública?
Para a vivência da democracia participativa começa pela revisão séria e imparcial da Constituição da República, excluindo todos os artigos que só beneficiam poucos cidadãos.
Num olhar rápidos descobrimos que a Constituição atribui ao Presidente da República o poder absoluto, é hora do debate profundo sobre a concentração do poder na figura do Presidente da República para evitar o autoritarismo.
Para se evitar a partidarização do Estado, deve haver clareza na relação entre o Estado e o partido, evitando-se, dessa forma, o sucateamento das instituições públicas.
A liberdade dos funcionários públicos na tomada de decisão sobre a pertença a um e ao outro partido. Isto é, nenhum funcionário público deve ser obrigado a ser membro do partido Fulano ou Beltrano.
Quanto aos órgãos eleitorais, deve haver total despartidarização para garantir o funcionamento justo, livre, transparente e imparcial.
Portanto, a sociedade civil deve ter a autonomia para constituir esses órgãos conscientes da sua missão para evitar fraude eleitoral.
As forças de defesa e segurança nacional devem estar ao serviço do Estado para que sejam guardiãs da ordem e da tranquilidade do país e do povo.
Das poucas propostas que fizemos acima, pretendemos, em suma, refletir que há necessidade de revisar profundamente o documento magno do país com vista a se estabelecer um Estado democrático, de paz, inclusivo, de liberdades, igualitário e fraterno.
O país precisa de homens e mulheres sérios para se resgatar confiança entre os moçambicanos e que a comunidade internacional confie no povo moçambicano.
A reconciliação nacional inicia pela partilha dos bens, começando pela justiça social e distribuição equitativa da economia.
Para que o diálogo produza bons frutos, deve ser mantido com honestidade e sinceridade. Não há diálogo se não houver escuta e compreensão.
Enfim, a moçambicanidade deve ser construída com responsabilidade e maturidade, perspectivando o futuro. O caminho certo nesse processo é aprender com os erros cometidos e se comprometer com a melhoria de todas as dimensões sociais, políticas e econômicas.
“Despertador de Sonhos”
Pe. Kwiriwi, CP.
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