OPINIÃO
A violência que a paciência construiu
É estranho perceber como a paciência, aquela virtude que nos ensinaram desde cedo, pode transformar-se, com o tempo, numa força que destrói mais do que constrói. Crescemos ouvindo que devemos esperar, tolerar e aceitar as injustiças, mas há momentos em que a paciência deixa de ser benéfica e passa a alimentar a violência silenciosa que cresce dentro de nós e ao nosso redor.
Em Nampula, e em muitas outras cidades do nosso país, vejo todos os dias sinais desta violência construída pela paciência. O povo suporta certas coisas. Suporta políticos que prometem mundos e fundos e depois desaparecem sem respostas. Suporta pequenos delitos que se tornam grandes problemas. A cada dia de espera, de tolerância, de paciência, algo dentro do coração das pessoas vai mudando.
Não é apenas a paciência que cria sofrimento; é a paciência diante da injustiça, diante da impunidade, diante daquilo que sabemos errado mas que nos obrigam a aceitar. Quando as pessoas suportam roubos, agressões ou desrespeito contínuo, uma faísca de raiva começa a crescer. E não demora muito para que a paciência se transforme em explosão. A violência que vemos nas ruas muitas vezes nasce desta mesma paciência que parecia calma e controlada.
Lembro-me de situações que acompanhei de perto. Homens e mulheres que, por anos, esperaram soluções do Estado, da polícia, das autoridades locais. Esperaram por escolas melhores, hospitais decentes, segurança no bairro. E, um dia, sem aviso, a paciência deles acabou. A raiva silenciosa transformou-se em acção. Alguns recorreram à justiça pelas próprias mãos; outros, à revolta nas ruas. Nenhum deles acordou um dia querendo machucar alguém. Mas a paciência cansada virou violência.
Não podemos ignorar este processo. A paciência tem limites. E quando esses limites são atingidos, a violência deixa de ser apenas física. Torna-se social, psicológica e cultural. Ela aparece nos gritos dos jovens que se sentem esquecidos, nos olhares de raiva daqueles que perderam tudo, nas decisões desesperadas de quem já não acredita em ninguém.
O que me preocupa mais é que, muitas vezes, culpamos as pessoas pelo que fazem sem perceber que a culpa verdadeira está naqueles que permitiram que a paciência se esgotasse. O silêncio das autoridades, a omissão das instituições, a injustiça constante – tudo isso constrói a violência sem que ninguém perceba. A violência que explode nas ruas, nos mercados, nas casas, é apenas a ponta de um iceberg que começou a se formar muito tempo antes, dentro de cada coração que suportou demais.
Por isso, precisamos reflectir sobre a paciência que ensinamos e sobre os limites que cada pessoa pode suportar. Ser paciente não significa aceitar tudo, nem se calar diante do erro. A paciência saudável constrói, educa, transforma. A paciência que suporta injustiças cria monstros invisíveis que, cedo ou tarde, se tornam visíveis.
Enquanto sociedade, devemos olhar para os sinais antes que seja tarde demais. Devemos ouvir os que reclamam, atender os que sofrem, agir antes que a paciência se transforme em violência. Caso contrário, continuaremos a colher os frutos de uma paciência mal administrada: medo, dor, ódio e revolta.
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