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OPINIÃO

Morreram a lutar por Nós

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Hoje, escrevo com o peito apertado e a consciência em chamas. Não por medo, mas por respeito. Respeito por cada moçambicano que saiu à rua para reclamar dignidade e encontrou a morte. Por cada jovem que levantou um cartaz e recebeu uma bala. Por cada mulher que gritou “basta!” e foi silenciada à força.

Faço hoje um tributo, sim.  Não é homenagem de flores nem de minutos de silêncio encenados em cerimónias oficiais. É uma homenagem de reconhecimento. Porque quem devia proteger matou. Porque quem devia ouvir, mandou calar. Porque quem devia governar para o povo, governa contra ele.

Não podemos esquecer o dia 27 de Outubro de 2024. Não podemos fingir que 23 de Dezembro de 2024 não existiu. Não podemos ignorar os corpos caídos nas ruas da Matola, de Nampula, de Quelimane, de Nacala. Eles estavam ali porque acreditavam que a mudança era possível. E por isso pagaram com a vida. E depois? Nada. Nenhuma investigação séria. Nenhum agente responsabilizado. Nenhum pedido de perdão. Apenas silêncio  aquele silêncio que mata duas vezes.

Há quem diga: “Por que foram às ruas? Deviam ficar em casa.” Pois eu digo: ficar em casa é morrer lentamente. Sair à rua foi um acto de coragem. E quando o povo já não tem medo da morte, é porque a vida que está a viver já não é digna.

Vivemos num país onde manifestar-se é crime, mas roubar o povo é carreira. Onde a polícia protege o poder, não o cidadão. Onde se gasta mais a comprar balas do que a construir escolas. Onde há mais prisões para jovens que gritam “liberdade” do que para os corruptos que roubam milhões.

Quem morre nas manifestações, morre por nós todos. Morre para que acordemos. Morre para que deixemos de aplaudir os carrascos e comecemos a erguer a voz contra os abusos. Morre para que um dia os nossos filhos possam caminhar pelas ruas sem medo de não voltarem.

Este tributo é para eles, os heróis anónimos. Os caídos. Os desaparecidos. Os ensanguentados sem justiça. Que este texto seja a sua lápide simbólica. E que nunca mais nos atrevamos a viver como se as suas mortes tivessem sido em vão.

E se um dia a liberdade chegar de verdade a Moçambique, que os nomes deles sejam os primeiros a ser lembrados. Não os nomes dos políticos que hoje fingem não ver, mas dos jovens que tombaram porque não aceitaram viver de joelhos.

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