OPINIÃO
A In(de)pendência dos Moçambicanos e suas doenças
Cinquenta anos. Meio século desde que gritámos “Independência ou morte!” com a boca cheia de esperança e os pés ainda feridos do colonialismo. Mas agora, olhando bem, parece que a vírgula ficou mal colocada. O que temos, muitas vezes, é independência e morte. Ou pior: independência de bandeira, mas dependência nas entranhas.
O povo canta, dança, levanta bandeiras. Mas por dentro, o país ainda tropeça. A independência política veio, sim — essa ninguém nega. Mas ficou como quem entrega uma casa velha com nova pintura. A estrutura, meu irmão, ficou igual. Os donos mudaram, mas os hábitos mudaram pouco.
Não é exagero dizer que trocámos o colono pelo camarada. A farda trocou-se pelo facto, mas o sabor do poder continua o mesmo: forte, doce para poucos e amargo para muitos. O Partido confundiu-se com o Estado, como vinho derramado na toalha branca. Tentamos limpar, mas a mancha ficou entranhada. Hoje, já nem sabemos onde termina um e começa o outro.
Quem mexe no erário como se fosse herança de família? Quem decide onde vai o dinheiro da saúde, da educação, da água potável, da energia eléctrica, com o mesmo à-vontade com que alguém escolhe o recheio da sua xima? São poucos. Sempre os mesmos. Filhos do mesmo sistema que aprendeu a viver daquilo que devia proteger.
E o povo? Fica doente. Literalmente. Doente de esperar. Doente por falta de remédios nos hospitais, de escolas com teto, de transporte digno, de pão na mesa sem precisar pedir favor. Mas também doente por dentro, porque já aprendeu a engolir tudo calado. A doença maior é essa: o medo. O hábito da submissão. A aceitação do “é assim mesmo”.
Fizemos 50 anos, mas a nossa autonomia ainda manca. Pedimos empréstimos para construir estradas e compramos carros de luxo com o troco. Celebramos “avanços” enquanto as crianças ainda aprendem sentadas no chão. Falamos de soberania nacional, mas não conseguimos produzir os nossos próprios medicamentos básicos.
Vivemos uma independência pela metade. E pior: adoecemos a pensar que estamos curados. E vamos sobrevivendo com diagnósticos falsos e receitas que não foram feitas para o nosso corpo.
Mas nem tudo está perdido. Porque ainda há quem sonhe. Ainda há quem resista. Há jovens que não se vendem por camisetes de campanha. Há mães que ainda educam filhos com valores, mesmo quando a fome bate. Há líderes que se recusam a ser donos e querem apenas servir. E há memória — sim, essa não morre fácil. A memória dos que lutaram não com discurso bonito, mas com sacrifício real.
Talvez o nosso problema nunca tenha sido a falta de independência, mas sim a falta de coragem para sermos verdadeiramente livres. Porque ser livre não é só mandar em si. É também cuidar do outro. É ter ética. É separar o bem comum do interesse pessoal.
A doença está aí, espalhada como poeira na época seca. Mas também está a cura, escondida nos pequenos gestos, nos actos corajosos, nas vozes que ainda não se calaram.
Moçambique ainda pode sarar, sim. Mas para isso, precisa de fazer o gesto mais difícil que qualquer nação pode tentar: encarar-se no espelho. Não aquele espelho cerimonial dos discursos bonitos, das efemérides maquilhadas, dos palcos decorados com flores plásticas e sorrisos ensaiados. Não. É preciso o espelho cru, sincero, o que mostra a ruga mal curada da corrupção, o hematoma da injustiça, o ferimento aberto do desemprego jovem, a chaga invisível da fome camuflada em estatísticas.
A independência de verdade — essa que entra na casa, que visita o quintal da mamana, que escuta o choro do bebé no posto médico sem pediatra, que senta-se ao lado da criança que aprende debaixo da árvore, que caminha com o camponês sem acesso ao mercado — essa ainda está em construção. Ainda é promessa. Ainda é sonho. E sonho adiado, muitas vezes, vira frustração acumulada. Cansa.
É fácil comemorar os 50 anos com fanfarras, canções, com chama da de(su)nidade e outros símbolos. Mas o verdadeiro símbolo da independência é a dignidade. É o povo poder andar de cabeça erguida, não porque foi ensinado a fingir orgulho, mas porque sente orgulho. Porque sabe que, apesar das dificuldades, vive num país que o respeita, que o ouve, que o serve — e não apenas o usa como escada para mais uma reeleição ou para mais um esquema escondido entre siglas e relatórios.
Enquanto a bandeira continuar a ser apenas um pano hasteado no alto das instituições, ela será só isso: pano. Bonito, representativo, mas vazio de sentido. Ela precisa descer. Precisa sujar-se no chão batido das aldeias, precisa pisar o pó da estrada rural, precisa respirar o mesmo ar que o povo respira. Precisa deixar de ser um símbolo distante e tornar-se presença viva de respeito, de compromisso, de justiça. Precisa ser um chão onde se pisa com esperança.
Porque a pátria não se mede apenas pela soberania territorial, mas pela soberania interior — aquela que nos diz que pertencemos a algo maior, algo que vale a pena defender, não com armas, mas com carácter. E isso só acontece quando há justiça, quando há acesso igual, quando o futuro não é herança de sobrenomes nem de militância partidária, mas construção conjunta.
Sarar, portanto, não será automático. Requer humildade política. Requer coragem cívica. Requer lideranças que saibam largar o poder como quem oferece um prato de comida — com gratidão, não com ganância.
Moçambique ainda pode sarar. Mas terá de aprender que independência não é um feriado: é uma responsabilidade. É uma exigência diária. É um compromisso com o povo e não apenas com o partido. E essa cura só começa no dia em que todos — de ministros a mototaxistas — puderem olhar o país e dizer, com verdade: “Isto também é meu. E vale a pena lutar por ele.”
-
SOCIEDADE7 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
SOCIEDADE2 anos atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
CULTURA2 anos atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
DESPORTO2 anos atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO2 anos atrásO homem que só gostava de impala
-
POLÍTICA12 meses atrásGoverno de Nampula com nova cara: nove novos administradores e várias movimentações
-
ECONOMIA11 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
OPINIÃO2 anos atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
