CULTURA
“Voz e Ancestralidade” celebra a herança espiritual africana de Moçambique
A mais recente obra do poeta e performer Leco Nkhululeko, intitulada “Voz e Ancestralidade”, é uma viagem literária às raízes espirituais do povo africano e um tributo à sabedoria ancestral que sustenta a identidade moçambicana. Ao longo de 76 páginas, o autor convida o leitor a mergulhar nas dimensões visíveis e invisíveis da existência, explorando a vida, a morte e o poder das crenças que ligam o homem aos seus antepassados.
“Voz e Ancestralidade” é uma travessia entre mundos. Nela, Leco faz da palavra um acto sagrado de reconciliação, afirmando que o africano nunca caminha só — carrega consigo os seus mortos, os seus deuses e os seus mitos. O poeta propõe uma leitura crítica e descolonizada da espiritualidade africana, afastando-se das visões que reduziram ou diabolizaram as práticas tradicionais.
“A morte não é o fim da vida, mas um caso por reflectir. A convivência com os nossos ancestrais é um resgate de uma história adormecida”, afirmou o autor, sublinhando que o diálogo com o mundo espiritual é também um exercício de memória e pertença.
Leco explica que o livro deve ser lido com um olhar académico e sensível, não religioso, permitindo uma interpretação livre e consciente das suas mensagens. “Os nossos ancestrais vivem, viveram e continuam a viver dentro das práticas espirituais. Cabe a cada leitor descobrir o seu próprio caminho entre o que é dor, o que é glória e o que é existência”, acrescentou.
Durante a apresentação da obra em Nampula, evento que teve lugar recentimente, o escritor e apresentador Geraldo Macalane destacou o valor cultural do trabalho de Leco Nkhululeko, classificando-o como um contributo importante para a preservação da identidade moçambicana. “Esta obra fala de nós, da nossa ligação com o invisível. É um lembrete de que temos uma história própria e que precisamos contá-la com orgulho. As mudanças culturais são lentas, percorrem gerações, mas começam por essa consciência: saber quem somos”, observou.
Em tempos de globalização, “Voz e Ancestralidade” ergue-se como acto de resistência cultural, mostrando que a modernidade não precisa romper com o passado, mas dialogar com ele. Cada poema é uma lembrança de que a cultura africana permanece viva, transmitida através da oralidade, da memória e do espírito. Assane Júnior
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