CULTURA
“Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou” — Lídia Jorge confronta legado colonial no Dia de Portugal
No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, assinalado esta terça-feira, 10 de Junho, a escritora e conselheira de Estado Lídia Jorge — uma das mais destacadas vozes da literatura portuguesa contemporânea — usou a tribuna pública para expor, com lucidez e coragem, as feridas abertas pelo passado colonial. Em Lagos — cidade de onde partiram caravelas e desembarcaram escravos — Lídia lembrou que “os portugueses estiveram envolvidos num processo de escravização longo e doloroso” e que “ninguém tem sangue puro”.
Ao afirmar que “somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou”, a autora propôs uma leitura crítica da história portuguesa, sem revanchismo, mas com o “sentido justo da reposição da verdade e do remorso”. Para Lídia Jorge, a memória das vítimas do tráfico negreiro deve ser assumida com dignidade, para que “nunca mais se repita”.
O discurso, carregado de referências a Camões, Cervantes e Shakespeare, atravessou também os dilemas do presente: o poder desmedido, a banalização da ignorância e a fragilidade das instituições democráticas. Num tempo em que o conceito de ser humano está a ser posto à prova, Lídia Jorge resgatou a ideia de resistência: “Um ser humano é um ser de combate. É só preciso determinar a causa certa.” Redacção
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