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ECONOMIA

Produção de brita para construção civil torna-se sustento de centenas de mulheres em Nampula

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A cada amanhecer, antes mesmo do sol se firmar no céu, dezenas de mulheres enfrentam o peso das pedras, da vida e da exclusão social na encosta de uma montanha conhecida como Serra da Mesa, no bairro de Muhala Expansão, na cidade de Nampula. Ali, com martelos gastos e mãos calejadas, transformam blocos de pedra bruta em brita — o material base da construção civil — para erguerem, também, os seus próprios sonhos.

São mulheres de diferentes origens, idades e histórias. Muitas são mães solteiras, viúvas ou foram abandonadas. Outras simplesmente recusaram-se a cruzar os braços diante da crise que encarece a vida em Moçambique. Encontraram nas pedras, onde muitos só veem dureza, uma fonte alternativa de renda e sobrevivência.

“Nós, mulheres, acordamos cedo para pelo menos trazer alguma coisa. O custo de vida está alto. Não dá para ficar em casa só à espera dos nossos maridos. Às vezes, eles saem à procura do pão e não conseguem nada. Eu sou mãe de filhos, não tenho marido. Se eu me sentar, quem vai sustentar a minha família?”, questiona-se Nicha Bernardo, uma das trabalhadoras da pedreira, enquanto enxuga o suor da testa.

A produção manual de brita exige força física e resiliência emocional. As pedras são grandes, o trabalho é perigoso, os instrumentos são rudimentares, mas o objectivo é claro: garantir alimento, escola para os filhos, um tecto seguro. Cada carga de brita é vendida por valores que variam entre mil e mil e trezentos meticais. Pouco, quando se pensa no esforço. Muito, quando se pensa que dali brota dignidade.

“Hoje em dia não existe trabalho de homem ou de mulher. Nós não podemos olhar para o nosso género como algo frágil. O homem pode ir embora ou morrer. E aí, como vamos sobreviver?”, questiona Filomena Afonso, que encontra nas pedras a força que o mercado formal de emprego lhe nega.

As histórias multiplicam-se em torno da montanha. São narrativas de superação, de luta e de conquistas silenciosas. Cristina Eugénio, por exemplo, orgulha-se de ter conseguido, com o seu trabalho na brita, construir a sua própria casa e formar os filhos.

“Este trabalho deu-me muito. Hoje tenho a minha casa, os meus filhos estão encaminhados. Às mulheres que ficam em casa a depender dos maridos, eu digo: levantem-se, façam alguma coisa. Até com as pedras é possível vencer”, afirmou, com um brilho nos olhos que nem o pó do trabalho conseguiu apagar.

As pedras da Serra da Mesa não falam, mas guardam nas suas rachaduras o som de martelos que moldam não apenas cascalho, mas esperança. Ali, sob o sol escaldante ou à mercê da chuva, aquelas mulheres constroem mais do que brita: constroem caminhos de resistência onde o Estado falha, onde o desemprego impera e onde o género ainda pesa.

No meio do ruído metálico dos martelos contra o granito, o que se ouve, no fundo, é um grito de autonomia: não vamos esperar que nos deem, vamos fazer por nós mesmas. Isabel Abdala

 

 

 

 

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