OPINIÃO
Onde pararam os nossos tratores-chapa?
Quando o Governo anunciou, com grande entusiasmo, que os tratores passariam a reforçar o transporte público nas zonas rurais, muitos moçambicanos ficaram divididos entre o espanto e a esperança. Espanto, porque era uma proposta improvável para um país que luta por modernização e integração rodoviária. Esperança, porque qualquer promessa de mobilidade, por mais improvável que fosse, parecia um sopro de alívio nas aldeias esquecidas.
Mas o tempo passou e a pergunta ficou: onde pararam os nossos tratores-chapa?
O projecto, tão falado nos telejornais e nas inaugurações oficiais, parece ter sido engolido pelo silêncio. Nenhum distrito viu tratores a transportar pessoas ou mercadorias, excepto em fotos de cerimónia. Não se escuta o roncar dos motores nas estradas rurais. Não se vêem filas de passageiros à espera deles. Não há relatos de aldeias conectadas por estes veículos. Nada. O país inteiro ficou com um eco de interrogação: O que falhou? Desistiram? Ou descobriram que a ideia, no fundo, era uma marcha atrás no caminho do desenvolvimento?
A verdade é simples e amarga: não se humanizam serviços públicos com máquinas rudimentares; humanizam-se com estradas dignas, seguras e transitáveis. Tratores são máquinas agrícolas, feitas para lavrar, gradear, puxar alfaias. Não são veículos desenhados para transportar pessoas, ainda menos por longas distâncias. São lentos como caracóis, pesados como búfalos, e desconfortáveis como jangadas de madeira bruta. A sua velocidade não acompanha a vida moderna e a sua estrutura não responde às exigências mínimas de segurança.
Se Moçambique quer realmente evoluir, não pode continuar a procurar soluções temporárias para problemas permanentes. O país não precisa de tratores-chapa. Precisa de estradas. Estradas que liguem Monapo a Muecate, Lalaua a Nampula, Moma a Angoche, Mecubúri ao resto do mundo. Estradas asfaltadas, com pontes que resistam às chuvas, com sinalização clara e com manutenção regular.
Porque, no fim das contas, o transporte público não é apenas um veículo, é um sistema. E nenhum sistema funciona sobre buracos, lama e rios sem ponte. A mobilidade não nasce de improvisos, mas de planeamento. Não nasce da ruralização dos transportes, mas da modernização das vias.
É constrangedor que, num mundo que avança para carros eléctricos, metros automatizados e estradas inteligentes, Moçambique ainda discuta a possibilidade de transportar pessoas em tratores, como se fôssemos uma sociedade obrigada a escolher sempre o caminho mais lento. Será que não merecemos um metro como o de Paris, ou de Verona? Será que não merecemos autocarros modernos, estradas seguras, transportadores privados motivados e integrados numa economia funcional?
Merecemos, sim. E não apenas merecemos, precisamos.
O desafio não está na falta de tratores, mas na falta de visão. Mobilidade é dignidade. É qualidade de vida. É acesso à saúde, educação, emprego e cidadania.
O povo moçambicano não quer soluções improvisadas: quer progresso. Quer caminhos transitáveis na época das chuvas, quer pontes sobre rios como Lúrio ou Muhikaté ou ainda Lalawa, quer estradas onde um chapa ou um autocarro circule sem risco de tombar ou ficar atolado por dois dias.
Em Malitti (Mecubúri-Muite), durante a época chuvosa, dezenas de famílias ficam ilhadas dias inteiros porque o rio transborda e a estrada, feita apenas de terra batida, transforma-se num pântano. Um carro não pode passar, uma motorizada arrisca afogar-se na lama e um trator, mesmo que existisse como transporte público, não teria força nem velocidade para vencer a cheia.
As crianças faltam à escola, as mulheres não podem chegar ao centro de saúde e os produtos agrícolas perdem-se. Ali, fica claro que nenhum trator resolverá o problema, mas uma estrada asfaltada e com pontes transitáveis, sim. Uma política séria de mobilidade, sim.
De facto, Moçambique não precisa de retrocessos com rodas. Precisa de futuro com caminhos. O país não evolui com tratores-chapa; evolui com infraestrutura. Com estradas que respeitam o povo. Com políticas que acompanham a era em que vivemos. Porque quem caminha para o desenvolvimento não escolhe a máquina mais lenta, escolhe a estrada certa. E mais não disse!
-
SOCIEDADE3 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
CULTURA1 ano atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
SOCIEDADE1 ano atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
DESPORTO1 ano atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO1 ano atrásO homem que só gostava de impala
-
ECONOMIA6 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
OPINIÃO1 ano atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
-
ECONOMIA2 meses atrásVazamento de provas leva ao cancelamento imediato dos exames da 9.ª classe
