OPINIÃO
Não poderia ter morrido no Hospital Central de Maputo?
Recebi a notícia da morte de Luísa Diogo com um nó na garganta. Como qualquer moçambicano consciente, senti tristeza. Porque ela foi uma filha desta terra, uma mulher que ocupou lugares de poder num país que ainda luta para reconhecer o valor das suas próprias mulheres. A morte, afinal, não distingue partidos, cargos ou posições. Ela chega para todos, silenciosa, implacável, igualitária.
Mas confesso que depois da primeira tristeza, veio uma segunda. Fiquei ainda mais triste ao saber onde ela morreu. Morreu longe de Moçambique. Morreu num hospital estrangeiro. E essa informação doeu mais do que o próprio falecimento.
Nos últimos dias, caminhei pelos corredores do Hospital Central de Nampula. Não como visitante ilustre, não como jornalista com acesso privilegiado, mas como moçambicano comum, misturado à multidão de pessoas cansadas, desesperadas e esperançosa ao mesmo tempo. O que vi ali não sai da minha cabeça.
Vi mães sentadas no chão frio, embalando filhos febris nos braços, com os olhos cansados de tanto esperar. Vi familiares deitados em esteiras improvisadas, dormindo nos corredores porque não há espaço, porque o hospital está sempre cheio.
Vi enfermeiras exaustas, correndo de um lado para o outro, fazendo o que podem com o pouco que têm. Vi médicos competentes, mas limitados por falta de equipamentos, falta de condições básicas para salvar vidas com tranquilidade. Vi pessoas chorando porque um exame simples não podia ser feito ali e precisava ser pago numa clínica privada que elas jamais poderiam custear.
E então pergunto, Excelências: será que algum de vocês já caminhou por esses corredores como o povo caminha? Será que já esperaram horas por uma consulta sem água, sem cadeiras, sem resposta? Será que já sentiram o cheiro pesado de sofrimento que se mistura com esperança nesses espaços?
Luísa Diogo uma mulher que ocupou o mais alto cargo executivo do país morreu fora de Moçambique. Poderia ter sido tratada no Hospital Central de Maputo! Poderia ter recebido cuidados na Clínica Boa Saúde de Nampula! Poderia, ao menos simbolicamente, ter confiado nos hospitais rurais da Beira ou no Centro de Saúde de Namicopo, onde o povo luta todos os dias para sobreviver? Mas não. Como tantos outros, partiu para longe.
Excelências, vocês inauguram hospitais com fitas e fotografias, prometem modernização, falam de “sistema nacional de saúde fortalecido”, mas quando a vida de vocês está em risco, o vosso primeiro instinto é fugir. Fugir para a África do Sul, para Portugal, para Índia, para qualquer lugar onde o sistema funcione de verdade.
E o povo? O povo fica. Fica nos corredores lotados, nas filas intermináveis, nos centros de saúde sem medicamentos, nas maternidades sem condições dignas, nas ambulâncias que muitas vezes nem existem.
Vi isso em Nampula. Vi gente morrer esperando. Vi gente implorar por um remédio simples que não estava disponível. Vi mães perderem filhos não porque Deus quis, mas porque o Estado falhou. E vocês ainda têm coragem de falar em “desenvolvimento”?
Excelências, não vos pergunto por ódio. Pergunto por justiça. Se o país que vocês dirigem não é bom o suficiente para tratar-vos na doença, como pode ser bom para o povo que nada tem?
Talvez um dia, quando um ministro, um governador, um alto dirigente decidir enfrentar a doença no Hospital Central de Maputo, em Nampula ou na Beira, possamos acreditar que algo mudou. Talvez um dia, quando vocês aceitarem ser tratados onde o povo é tratado, possamos dizer que finalmente governam para todos.
Até lá, continuarei a caminhar pelos corredores, a observar, a escrever e a perguntar
Porque ser pobre não é defeito, mas governar sem humanidade é.
SER POBRE NÃO É DEFEITO.
-
SOCIEDADE3 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
CULTURA1 ano atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
SOCIEDADE1 ano atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
DESPORTO1 ano atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO1 ano atrásO homem que só gostava de impala
-
ECONOMIA6 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
OPINIÃO1 ano atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
-
ECONOMIA2 meses atrásVazamento de provas leva ao cancelamento imediato dos exames da 9.ª classe
