OPINIÃO
A Pátria que perdeu o encanto e o Povo que perdeu o medo
Houve um tempo em que o Estado moçambicano era uma ideia imensa, vestida com as cores da libertação. Um tempo em que os discursos inflamados nas praças públicas arrancavam aplausos sinceros e a confiança de um povo que, de peito aberto, acreditava estar a erguer uma casa chamada Moçambique. Desse tempo de orgulho e espanto, resta hoje uma ressaca cinzenta. A admiração ruiu; no seu lugar instalaram-se duas forças gémeas que dividem o mesmo teto: a decadência institucional e o medo.
O divórcio entre quem governa e quem sobrevive consubstanciou-se no absurdo do quotidiano. Hoje, o Estado já não assombra pela sua grandeza, mas pela sua fragilidade ultrajante. Manifesta-se na pompa das inaugurações de fontanários públicos, onde se abre uma torneira com direito a champanhe, fitas vermelhas e câmaras de televisão, como se saciar a sede básica do cidadão com águas turvas fosse um favor de luxo e não uma obrigação falhada há meio século.
Manifesta-se também no espectáculo caricato de novos autocarros a gás que avariam nas bermas das estradas logo na primeira semana de serviço, enquanto milhares de pessoas, exaustas, observam a mecânica improvisada da governação.
Mas o riso irónico das paragens de autocarro morre rapidamente quando a noite cai. Importa recordar que Moçambique não é apenas a cidade metropolitana de Maputo. A decadência trouxe consigo uma mutação perversa no sentimento popular: o Estado já não é a garantia da segurança; tornou-se a própria fonte do sobressalto.
A admiração murchou nas ruas de Maputo, no Chimoio e nas esquinas da Beira, sepultada sob o peso de relatórios macabros que relatam centenas de mortos e milhares de detidos em protestos que pediam apenas transparência. Cantar o hino nacional ou bater uma panela na varanda transformou-se num acto de coragem quase clandestino. O jovem que sai à rua para reivindicar o seu direito à cidadania já não teme a criminalidade comum; teme o fardamento oficial. Sabe que a resposta à sua exigência por dignidade pode vir em forma de gás lacrimogéneo ou de uma bala perdida que, neste canto do mundo, parece ter uma precisão cirúrgica contra quem discorda.
Viver em Moçambique tornou-se um exercício de equilibrismo sobre um teto de vidro.
Olha-se para o norte, em Cabo Delgado, e vê-se o Estado recuar diante do terror, deixando milhares de deslocados fugirem com a vida amarrada num pano de capulana. Por ironia da realidade, a fiscalização e o patrulhamento contra o consumo e tráfico de droga mostram-se cada vez mais frágeis na cidade portuária de Nacala. Os efeitos devastadores da droga continuam a causar dor em muitas famílias. O medo deixou de ser o principal problema, porque antes a droga era escondida e hoje é consumida à vista de todos. Há mesmo quem defenda a legalização da substância que lhes corrói a dignidade.
Olha-se para as províncias do centro, e o vazio de autoridade é tão profundo que o povo, abandonado à ignorância e ao desespero, persegue-se mutuamente por boatos de feitiçaria, aplicando uma justiça popular bárbara porque já ninguém acredita plenamente nos tribunais oficiais.
O medo mudou de lado. Antes, o poder temia a indignação do povo. Hoje, o povo teme a sobrevivência de um poder que, sem argumentos para o diálogo, parece ter restado apenas o monopólio da força.
Nas avenidas cortadas por barricadas e no silêncio pesado que se segue aos confrontos, revela-se a grande ironia moçambicana: as elites continuam a celebrar banquetes nas suas mansões erguidas com o sacrifício público, alheias à dor colectiva. Fingem não ver que a pátria que governam já não as ama.
E o moçambicano, resiliente por sina e assustado pelo contexto, recolhe-se à sua humilde habitação. Tranca a porta com duas voltas na chave, não para se proteger dos bandidos da noite, mas rezando para que o amanhã traga um pouco menos de Estado e um pouco mais de paz.
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