OPINIÃO
A normalização de uma dependência social
O crescimento exponencial dos jogos de azar deixou de ser um fenómeno isolado para se tornar um problema estrutural. O que antes se restringia a espaços específicos hoje invade o quotidiano através de plataformas digitais, notificações constantes e uma publicidade persistente que não respeita limites sociais, económicos nem éticos. Estamos diante de uma dependência que se instalou de forma silenciosa, mas profunda, no tecido social.
Não se trata apenas de comportamento individual. A dimensão atual do jogo de azar revela um sistema organizado, tecnicamente sofisticado e economicamente poderoso, que opera sobre fragilidades reais: pobreza, desemprego, instabilidade financeira e ausência de perspetivas. O jogo prospera exatamente onde as oportunidades escasseiam, apresentando o acaso como substituto do trabalho, do mérito e das políticas públicas eficazes.
A cada notificação que surge no ecrã, reforça-se uma narrativa perigosa a de que a solução para dificuldades estruturais pode ser encontrada numa aposta. Essa mensagem, repetida à exaustão, cria dependência psicológica, alimenta frustração crónica e conduz a um ciclo de perdas sucessivas. O jogador já não aposta por entretenimento, mas por necessidade emocional, na tentativa constante de corrigir o prejuízo anterior.
No seio familiar, o jogo de azar gera instabilidade financeira, quebra de confiança e conflitos permanentes. Recursos destinados à subsistência são desviados, prioridades são invertidas e o ambiente doméstico deteriora-se. No plano social, observa-se o aumento do endividamento informal, da evasão laboral e da normalização de comportamentos de risco, sobretudo entre jovens.
Enquanto outras formas de dependência são combatidas, esta é promovida, publicitada e incentivada. O discurso oficial fala de responsabilidade individual, mas ignora a responsabilidade sistémica de quem cria, divulga e lucra com mecanismos desenhados para viciar. O silêncio institucional não é neutralidade; é cumplicidade passiva.
Permitir que este cenário se consolide é aceitar a normalização de uma dependência social que mina lentamente a coesão comunitária. É transformar o desespero em fonte de receita e a fragilidade em oportunidade de mercado. Nenhuma sociedade pode considerar-se saudável quando lucra sistematicamente com a perda dos seus cidadãos mais vulneráveis.
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