OPINIÃO
Quem define hoje a agenda pública?
Durante muito tempo a resposta a esta pergunta parecia relativamente simples. A agenda pública era fortemente influenciada pelos meios de comunicação social. O que aparecia na primeira página dos jornais, no início dos telejornais ou nos programas de rádio tornava-se automaticamente assunto de conversa nas casas, nos mercados e nas instituições.
Era o chamado poder de definir os temas do debate público.
O jornalista investigava, seleccionava, hierarquizava os acontecimentos. A sociedade discutia aquilo que a imprensa colocava em destaque. Não significava que os media controlassem completamente o pensamento das pessoas, mas tinham uma influência clara sobre os assuntos que dominavam a esfera pública.
Hoje o cenário tornou-se muito mais complexo.
A agenda já não nasce apenas nas redacções. Ela emerge de uma disputa constante entre vários actores: jornalistas, políticos, influenciadores digitais e as próprias redes sociais. Cada um tenta puxar a atenção pública para os temas que lhe interessam.
Basta observar o funcionamento de um dia comum nas plataformas digitais.
Um político faz uma declaração polémica. Em poucos minutos o vídeo circula em várias páginas. Influenciadores comentam, apoiam ou criticam. Os utilizadores partilham indignação ou entusiasmo. De repente, aquilo que começou como uma frase isolada transforma-se num grande debate nacional.
Muitas vezes os próprios jornalistas entram nesse ciclo.
Não raramente vejo redacções a transformar em notícia aquilo que já está a circular nas redes sociais. Um comentário viral, um vídeo polémico ou uma publicação controversa passam rapidamente a ocupar espaço nos portais informativos. A agenda que antes era construída dentro das redacções começa agora a ser moldada também fora delas.
Os influenciadores digitais ganharam um papel inesperado nesse processo.
Alguns deles conseguem mobilizar audiências que ultrapassam a de muitos órgãos de comunicação social. Uma simples opinião publicada numa página popular pode provocar mais discussão pública do que uma reportagem aprofundada.
Isso altera profundamente o equilíbrio da esfera pública.
Os políticos perceberam rapidamente esse novo ambiente. Muitos já não falam apenas para jornalistas em conferências de imprensa. Falam directamente para as redes sociais, sabendo que uma frase calculada pode tornar-se viral e dominar o debate nacional durante dias.
Nesse jogo de visibilidade, a lógica do espectáculo ganha força.
Quanto mais polémica for uma declaração, maior a probabilidade de ela circular amplamente. O risco é evidente: assuntos complexos acabam substituídos por episódios momentâneos de indignação digital.
Enquanto isso, problemas estruturais permanecem quase invisíveis.
Questões como a qualidade da educação, o funcionamento do sistema de saúde ou a gestão de recursos públicos raramente produzem a mesma intensidade de viralização que uma polémica instantânea. No entanto, são precisamente esses temas que deveriam ocupar o centro da agenda pública.
É aqui que o jornalismo enfrenta um teste importante.
Se os media passarem a seguir apenas aquilo que já é tendência nas redes sociais, deixam de exercer o seu papel de orientação informativa. Tornam-se apenas amplificadores de ruído digital.
Definir agenda não significa ignorar o que circula nas plataformas. Mas também não significa submeter o debate público ao humor momentâneo do algoritmo ou da viralização.
No fundo, a pergunta continua aberta: quem deve orientar a conversa colectiva de uma sociedade?
Se essa tarefa ficar apenas nas mãos da lógica da popularidade digital, corremos o risco de transformar o debate público num permanente concurso de barulho. E quando o barulho domina, os problemas reais do país tendem a desaparecer no meio da confusão. E mais não disse!
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