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OPINIÃO

Os Radares da Injustiça

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Há dias em que as estradas de Moçambique parecem verdadeiros campos de armadilha.
Não são os buracos, nem as curvas fechadas, são os radares e os homens que os operam, escondidos entre sombras e arbustos, à espera de um ligeiro descuido para transformar um quilómetro a mais em um bilhete de culpa.

Durante muito tempo, muitos de nós, condutores de viaturas ligeiras, homens e mulheres que lutam para chegar ao trabalho, à escola, à vida, acreditámos que a Polícia de Trânsito estava ali para garantir a nossa segurança.
Acreditámos que o radar era uma ferramenta de prevenção, um aliado da vida.
Mas o que hoje se vê nas nossas estradas é outra história.

Os radares aparecem como iscas, não como guardiões.
Aparecem em curvas, em descidas, atrás de muros, como se o objetivo não fosse evitar o perigo, mas apanhar o cidadão.
E quando o cidadão é apanhado, não há diálogo, não há empatia, não há explicação, há apenas uma folha, um número, um valor a pagar.
O agente, por vezes com olhar frio e semblante de vitória, diz:

“Pode reclamar no INATRO.”

E nós, automobilistas, ficamos ali, desarmados, silenciosos, com o coração apertado, perguntando: onde ficou a justiça?

Dizem que a lei é para proteger, mas o que temos visto é a lei transformada em ameaça.
O radar, que devia medir a velocidade dos carros, passou a medir o desespero das pessoas.
E a multa, que devia educar, tornou-se um instrumento de arrecadação, uma espécie de imposto disfarçado de segurança.

Nenhum de nós é contra a disciplina na estrada.
Sabemos que a velocidade mata, que o álcool destrói, que o descuido custa vidas.
Mas também sabemos que a justiça não pode ser seletiva, nem a lei pode servir para arrancar valores aos que já lutam por cada litro de combustível.

Quando um cidadão pede para ver o zoom da matrícula e lhe negam, não é só uma imagem que se esconde, é a verdade que se apaga.
Quando um radar é colocado depois de uma curva, não é o limite que se mede, é a esperteza de quem devia proteger-nos.

Por isso, esta crónica não é só minha.
É de todos os que conduzem com medo de quem devia dar segurança.
É de todos os que sentem que o volante se tornou um peso e não uma liberdade.
É de todos os que acreditam que justiça na estrada é mais do que números, é respeito, transparência e humanidade.

Enquanto os radares forem usados como armas de arrecadação, e não como ferramentas de prevenção, o trânsito continuará a ser um campo de caça.
E nós, os automobilistas ligeiros, continuaremos a ser presas fáceis de um sistema que perdeu o rumo.

A estrada precisa de ordem, sim.
Mas também precisa de coração.
Porque, se a segurança se constrói com medo, o país anda, mas não avança.

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