OPINIÃO
Juventude sem memória colectiva
Os tempos mudaram. É verdade. Aliás, costuma-se dizer que “os tempos passam”. Hoje, em qualquer esquina de Maputo, Nampula ou Quelimane, os jovens sabem o último “hit” americano, repetem expressões brasileiras, vestem roupas importadas da China, imitam passos de dança da Coreia do Sul e exibem telefones que custam mais que o salário dos seus pais. Mas quando alguém lhes pergunta quem foi Mahamudo Amurane, Eduardo Mondlane, Kant de Voronha, Josina Machel ou o significado de Mueda, ficam a olhar como se a pergunta viesse doutro planeta. Globalizados, sim. Mas profundamente desenraizados.
Escrevo não como quem ouviu dizer, mas como quem presenciou com os próprios olhos. Há dias, num “chapa” que ia da Faina para Memória, um grupo de jovens entrou a rir alto, cada um com o telefone na mão. Tocava música americana no volume máximo, e todos imitavam passos de dança de um cantor estrangeiro. Até aqui, nada de mal. O problema começou quando uma senhora de idade, com lenço bem amarrado e sacola de mandioca aos pés, tentou meter conversa: perguntou-lhes em Emakhuwa se sabiam onde ficava a próxima paragem. Nenhum respondeu. Riram-se, e um até disse em português arrastado: “Avó, fala direito, estamos na cidade capital do Norte. Isto é Nampula”. O silêncio que se seguiu foi pesado. Eu, no banco de trás, senti uma dor funda — não pela falta de educação apenas, mas porque percebi que, naquele momento, a ponte entre gerações tinha caído.
Não é a primeira vez que vejo isto. Já assisti a jovens que recitam músicas de Drake palavra por palavra, mas não sabem entoar uma canção em Emakhuwa. Vi raparigas que discutem longamente sobre novelas mexicanas, mas não sabem contar um único conto tradicional que as avós lhes deixaram ou as estórias humorísticas de Mukusakame. E vejo, todos os dias, escolas que enchem os programas de matemática, inglês e informática, mas que se calam sobre a nossa própria história, os nossos heróis, as nossas línguas.
É verdade que o mundo mudou. Somos todos globalizados. O problema não está em ouvir música estrangeira ou usar roupa importada. O problema está quando a modernidade se torna desculpa para renegar a raiz. Quando se fala inglês com sotaque forçado, mas não se entende Xichangana, Emakhuwa ou Elomwe. Quando se exibe tatuagens japonesas, mas não se sabe interpretar os sinais da própria tradição. Quando se quer ser cidadão do mundo, mas se esquece primeiro de ser cidadão da própria pátria.
O que me dói mais é perceber que a juventude não está só a perder referências individuais, está a perder memória colectiva. E memória não é luxo: é base. É cimento da nação. Sem ela, ficamos a caminhar no vazio, como sombras que existem mas não têm rosto.
Recordo-me de uma conversa com um ancião em Wanakhalipwi. Ele disse-me: “Filho, o mundo pode andar rápido, mas se a raiz seca, a árvore cai”. Foi uma advertência sábia. Hoje, olhando para os jovens que vivem a vida como se tudo fosse “trend”, percebo o aviso. Um povo sem memória, mesmo que globalizado, corre o risco de não ter futuro.
Escrevo isto porque acredito que ainda há tempo. Ainda podemos ser modernos sem deixar de ser moçambicanos, amakhuwa, etc. Podemos usar a internet e, ao mesmo tempo, aprender os cânticos tradicionais. Podemos viajar pelo mundo e nunca ter vergonha da nossa língua, da nossa comida, do nosso batuque, da nossa identidade.
A globalização não deve ser condenação. Mas se ela continuar a arrancar as nossas raízes, seremos apenas pó levado pelo vento. E eu, que vi com os meus olhos, não quero um país de pó. Quero um país de árvore robusta, de sombra firme, de frutos doces que alimentem não só os nossos, mas também os que vêm de fora.
Porque, no fim, globalizados ou não, só seremos alguém se soubermos de onde viemos.
Num dia quente em Murapaniwa, um jovem chega todo orgulhoso à vizinhança do bairro, com o telemóvel na mão, dreads impecáveis e fones a tocar música americana. A avó, sentada à sombra, olha para ele e pergunta:
— Meu filho, sabes qual é a música que os nossos antepassados cantavam quando a chuva não vinha?
O rapaz olha desconfiado, ri e responde:
— Avó, isso é velho demais, eu só sei o que toca no TikTok.
A avó suspira, balança a cabeça e diz:
— Então, meu filho, quando precisares de ensinar aos teus netos a paciência, a coragem e a honra, não digas que aprendeste com a rede social. Aprende primeiro com quem caminhou antes de ti.
Moral: O riso vem fácil, mas a memória é que forma cidadãos. Sem ouvir os mais velhos, até o TikTok se torna mestre de gerações desenraizadas. E mais não disse!
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