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ECONOMIA

Cooperativa de Murrua transforma economia local com apoio da Haiyu

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A comunidade de Murrua, distrito de Angoche, vive hoje um novo fôlego económico graças à implantação de uma cooperativa comunitária de venda de insumos agrícolas e pesqueiros, financiada pela empresa Haiyu Mozambique Mining, Co. Lda. A infraestrutura, construída no âmbito do plano de responsabilidade social da mineradora, representa para os moradores um símbolo de progresso e dignidade. Avaliada em 4.107.541,34 meticais, a cooperativa permitiu encurtar distâncias, dinamizar o comércio local e reforçar a autonomia das famílias que vivem da pesca e da agricultura.

Segundo o régulo Kuruxiwa, nome tradicional do líder comunitário Lopes Cocotela Vasco, a ideia da cooperativa surgiu num contexto de diálogo intenso entre a empresa, o governo local e as comunidades abrangidas pelas operações da Haiyu. “Foi em 2017 que, depois de muitas reuniões e escutas com o governo e com a nossa população, vimos que era necessário deixar um lembrete nas comunidades. Algo útil, que ficasse e que gerasse desenvolvimento”, conta o régulo, que desempenha o cargo desde 2011.

“Fizemos mais de sete reuniões com o governo e pelo menos três nas comunidades. Queríamos saber o que realmente fazia sentido para o nosso povo. O comércio foi identificado como um dos pilares para o nosso desenvolvimento. E daí surgiu a proposta de criar uma cooperativa de insumos ligados à nossa vida: agricultura e pesca”, explica.

Desde a sua inauguração, a cooperativa tem desempenhado um papel central na vida das comunidades de Murrua, permitindo o acesso local a bens antes disponíveis apenas em áreas urbanas distantes. “Para comprar redes de pesca, anzóis, linhas, enxadas ou outros produtos, tínhamos de viajar até à cidade, gastando muito dinheiro e tempo. Hoje temos tudo isso aqui”, testemunha o régulo.

Mais do que um armazém de vendas, a cooperativa funciona como um sistema de crédito comunitário. Os moradores podem adquirir os produtos com facilidades de pagamento e o valor é reinvestido num fundo rotativo comunitário. “É uma forma de nos organizarmos, de criar um ciclo em que todos ganham. Mas também é um processo de aprendizagem. Nem todos estavam preparados para lidar com o crédito”, observa.

Gestão local e educação financeira impulsionam mudanças

A gestão da cooperativa é assegurada por uma comissão comunitária, composta por membros eleitos entre os residentes e representantes dos grupos locais. Para garantir a transparência, foi criado um sistema de controlo com cheques e prestação de contas periódica. Os lucros obtidos são direccionados para a aquisição de novos produtos e reforço do fundo rotativo. “Passámos por algumas dificuldades. Houve quem pensasse que, por ser da comunidade, o crédito não precisava de ser pago. Tivemos casos de beneficiários que emigraram sem liquidar as dívidas. Mas hoje, com trabalho de sensibilização, as pessoas já começaram a entender que, se não houver retorno, o sistema quebra. E amanhã, outros que precisarem não terão acesso”, afirma o régulo.

Segundo ele, o processo de educação financeira e mobilização é contínuo. “A comissão gestora faz encontros regulares. Explicamos, mostramos as contas, falamos do futuro. Isso cria sentido de pertença. Já não é apenas um armazém da empresa, é uma ferramenta do povo.”

A criação da cooperativa faz parte de um modelo mais amplo de organização comunitária promovido pelo próprio régulo, em articulação com os parceiros de desenvolvimento. A comunidade criou organizações de base, como o comité de gestão de recursos naturais e o fundo comunitário local, para garantir que os benefícios da presença da Haiyu não se percam com o tempo. “A minha visão sempre foi de que não basta receber. É preciso saber gerir. Por isso, formámos estruturas que nos permitem tomar decisões e acompanhar tudo de perto. Mesmo sem publicação no Boletim da República, conseguimos ter despacho local que reconhece o funcionamento do nosso comité”, sublinha.

Um modelo sustentável e replicável

O impacto da cooperativa vai além da facilitação do comércio. A presença de produtos essenciais a preços acessíveis tem estimulado pequenas actividades comerciais, encurtado distâncias, reduzido custos e fortalecido a produção local. “Hoje, há pescadores que saem de madrugada e, ao voltar, já podem comprar linhas ou reparar as redes aqui mesmo. Os agricultores conseguem sementes e ferramentas sem abandonar as suas machambas durante dias. Isso muda tudo”, afirma.

Além disso, a cooperativa tem servido como escola prática de cidadania económica, onde os conceitos de gestão, crédito, reembolso e investimento colectivo são aprendidos na prática, com base na experiência vivida. Apesar do sucesso, o régulo Kuruxiwa reconhece que ainda há passos por dar. O crédito precisa de ser mais bem compreendido, a rotatividade dos produtos exige atenção e o sistema de mobilização comunitária deve ser reforçado com apoio técnico. “Temos feito muito com poucos meios. Se tivermos mais formação e apoio, poderemos alargar o impacto e envolver mais comunidades vizinhas”, afirma.

Para ele, o que está em curso em Murrua é um modelo que poderia ser replicado noutras zonas do país. “As empresas devem perceber que investir na comunidade é garantir sustentabilidade para elas mesmas. Quando o povo tem o que precisa, há menos conflitos, mais colaboração e mais paz.”

A experiência da cooperativa de Murrua mostra como um investimento pontual, se bem ancorado em estruturas locais e participação activa, pode gerar transformações duradouras e sustentáveis. A Haiyu, ao aceitar ouvir as comunidades, abriu espaço para uma nova forma de fazer responsabilidade social: com diálogo, inclusão e resultados concretos.

Hoje, Murrua é um exemplo. A economia gira em torno de um espaço comunitário que combina tradição, inovação e autonomia. E como resume o régulo Kuruxiwa, com orgulho:
“Antes íamos à cidade. Hoje temos tudo aqui. E somos nós que gerimos.”

 

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