OPINIÃO
Areias Pesadas de Zalala: dúvidas mais pesadas
Os mais velhos raramente abandonam o conforto das suas casas e machambas para se amontoarem nas ruas sem razão plausível. Pois, antes de levantarem as vozes, eles observam, analisam, recordam e comparam. A experiência transformou-os em verdadeiras bibliotecas vivas da sociedade. Por isso, quando eles saem à rua para protestar, o país deve escutar com atenção; pois quando se manifestam contra uma determinada acção/situação, é porque algo, de facto, não está bem.
Foi exactamente isso que aconteceu na Praia de Zalala, na cidade de Quelimane. Numa manifestação pacífica, moradores entoaram cânticos, denunciando alegadas actividades ligadas à exploração de areias pesadas, por cidadãos chineses, e acusando as autoridades governamentais de permitirem a venda dos recursos da região sem transparência. O mais preocupante não é apenas a presença dos chineses, em Zalala, mas a confusão criada pelas próprias autoridades moçambicanas, ao apresentarem versões diferentes (o que aprofunda a desconfiança popular).
Por um lado, o chefe da localidade confirma actividades de prospecção visando a futura exploração de areias pesadas e, ainda, admite que houve consulta pública com parecer favorável “em princípio”. Por outro, o governador provincial afasta inicialmente essa possibilidade, classificando o assunto como boato, embora reconheça a presença dos chineses naquela zona. Mais tarde, afirma que, caso a população não queira a exploração, o governo não irá autorizar o projecto. Aqui surge uma questão inevitável: afinal, quid veritas (onde está a verdade)?
Porque, convenhamos, “contra facta nulla argumentum”: os chineses estão em Zalala; as máquinas lá estão; os tractores deixam rastos; há movimentações visíveis. E perante evidências tão concretas, o governo parece caminhar em contra-mão, como se a verdade fosse uma prova de múltipla escolha, onde cada cidadão decide qual versão deve acreditar.
A manifestação de Zalala não nasceu do vazio. Nasceu do medo colectivo de repetir histórias, já conhecidas em várias regiões de Moçambique. Histórias onde promessas de desenvolvimento terminam em pobreza local, degradação ambiental e benefícios concentrados nas mãos de poucos que vivem a grande e a francesa, ou na “relva”, deixando o povo a viver do pão que diabo amassou, ou na “selva”.
Os idosos que marcharam pelas ruas carregam memórias suficientes para desconfiar. Eles conhecem projectos extractivos que chegaram acompanhados de discursos triunfalistas sobre progresso e crescimento económico, cujos resultados pouco ou nada se reflectiram na vida das comunidades; conhecem contractos pouco transparentes, interesses obscuros e redes de favorecimento onde os cartéis, nhonguistas, fantasmas administrativos e as raposas acabam sendo os verdadeiros beneficiários da riqueza nacional. Enquanto isso, o povo apenas fica com poeira, barulho das máquinas, doenças respiratórias provocadas pela poluição, erosão costeira e contínua marginalização social.
Por isso, o protesto, protagonizado pelas “bibliotecas velhas”, não deve ser encarado como ignorância popular ou resistência ao desenvolvimento. Pelo contrário, trata-se de um acto de consciência colectiva e de valorização e protecção das futuras gerações. Aqueles idosos sabem que há recursos não renováveis que, uma vez usados irresponsavelmente, hipotecam o futuro de uma nação.
O caso de Zalala expõe também um problema estrutural do Estado moçambicano: a fragilidade ou défice da comunicação institucional. Em assuntos sensíveis como este, o governo não pode falar em vozes desencontradas. A falta de coerência alimenta rumores, cria insegurança e revolta social. Aqueles munícipes pedem respostas claras.
Quando os idosos abandonam o silêncio e saem às ruas é porque a experiência lhes ensinou a ler os sinais do perigo/tempo antes que seja tarde demais. Portanto, haja transparência, justiça social, accountability…, que são ditames de boa-governação, se se quer dar azo ao apelo do Presidente da República no que concerne a luta pela interdependência económica.
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