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OPINIÃO

O jornalista e o algoritmo

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Houve um tempo em que a agenda das notícias era decidida sobretudo dentro das redacções. Os jornalistas discutiam, avaliavam a relevância dos acontecimentos, ponderavam o interesse público. Nem sempre o processo era perfeito, mas havia um princípio relativamente claro: aquilo que chegava ao público deveria ser o que tinha maior importância social.

Hoje esse cenário mudou de forma profunda.

Entre o jornalista e o leitor surgiu uma nova figura invisível, silenciosa e extremamente poderosa: o algoritmo. São programas criados pelas plataformas digitais que determinam quais conteúdos aparecem com maior destaque nos ecrãs das pessoas.

Na prática, isso significa que nem sempre a notícia mais relevante é a que mais circula.

A lógica do algoritmo não é necessariamente a lógica do interesse público. O seu critério principal costuma ser outro: o nível de interacção. Conteúdos que provocam reacções rápidas, comentários intensos ou partilhas em grande número tendem a ganhar mais visibilidade.

E aqui começa um dilema sério para o jornalismo.

Uma investigação cuidadosa sobre políticas públicas pode exigir leitura atenta e reflexão. Já uma manchete sensacionalista, um vídeo polémico ou uma frase provocadora têm muito mais facilidade em gerar cliques imediatos. O algoritmo detecta esse movimento e amplifica-o.

O resultado é um ambiente informativo cada vez mais condicionado pela lógica da atenção.

Já observei casos em que reportagens importantes passaram quase despercebidas nas redes sociais, enquanto conteúdos superficiais ou controversos dominavam as conversas digitais durante dias. Não porque fossem mais relevantes, mas porque despertavam emoções rápidas.

Nesse contexto, o jornalista enfrenta uma pressão constante.

Publicar aquilo que realmente importa pode significar pouca visibilidade nas plataformas digitais. Por outro lado, adaptar o conteúdo para agradar ao algoritmo pode comprometer a profundidade e o rigor da informação.

A tentação do chamado clickbait surge precisamente nesse terreno. Títulos exagerados, narrativas simplificadas, dramatizações desnecessárias. Tudo isso pode aumentar a circulação de uma notícia, mas também pode enfraquecer a confiança do público.

O problema é que o algoritmo não avalia a qualidade jornalística.

Ele mede sobretudo comportamento: cliques, partilhas, tempo de visualização. O que prende a atenção tende a ganhar prioridade, mesmo que o conteúdo não seja o mais informativo.

Isso altera silenciosamente a própria agenda mediática.

Temas complexos, que exigem investigação longa e explicações detalhadas, começam a perder espaço para conteúdos mais rápidos e mais emotivos. A esfera pública passa a ser influenciada não apenas pelo trabalho editorial das redacções, mas também pelos mecanismos técnicos das plataformas digitais.

O jornalista continua a produzir a notícia, mas já não controla totalmente o seu percurso.

Perante essa realidade, a grande questão torna-se inevitável: quem decide, afinal, o que merece atenção pública? A redacção que investiga e selecciona os factos ou o algoritmo que calcula reacções?

Talvez a resposta esteja numa tensão permanente entre esses dois mundos.

O jornalismo não pode ignorar a existência das plataformas digitais. Elas tornaram-se um dos principais canais de circulação da informação. Contudo, submeter completamente o trabalho editorial à lógica do algoritmo seria abdicar da responsabilidade central da profissão.

A missão do jornalista continua a ser a mesma: informar com rigor, contextualizar os acontecimentos e servir o interesse público.

Mesmo quando o algoritmo prefere outra coisa. E mais não disse!

 

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