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OPINIÃO

Velas, Crânio, Sombras e Ouro

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À noite, a cidade muda de rosto. O barulho do trânsito transforma-se num sussurro, e as luzes que piscam nas ruas parecem observar quem se atreve a cruzar os becos. É nesse silêncio que alguns se movem com entusiasmo, muitas vezes acompanhados por amigos ou conhecidos, carregando bolsos vazios e corações cheios de um desejo inexplicável. Querem riqueza, poder e fama. Não a conquistada aos poucos, não aquela que exige paciência e suor. Querem riqueza instantânea, aquela que chega em 24 horas, como quem ganha num jogo de lotaria milionária. E, para isso, recorrem à bruxaria, lá nos becos e, por vezes, no meio do nada, onde tudo começa com promessas imediatas.

Velas acesas, símbolos riscados no chão, crânios e espelhos que mostram o que não existe — o famoso espelho que mente —, cheiro de incenso misturado a algo que ninguém nomeia. Tudo faz parte de um ritual que promete ouro, poder, fama e prosperidade. Alguns fecham os olhos e imaginam casas, carros e contas cheias de dólares, mesmo vivendo num país do metical. Outros, com dedos trémulos, sussurram pactos que nem sempre compreendem, acreditando que uma palavra, um gesto ou um objecto têm o poder de dobrar a sorte ou transformar a miséria em riqueza.

Mas a magia procurada com ganância raramente é pura; ela quase sempre traz consequências. Cobra um preço inimaginável, que não se lê nos contratos. Às vezes, exige a perda de familiares ou obriga alguém a viver com uma serpente gigante dentro de casa; outras vezes, parece fundir dois espíritos num só corpo, levando a pessoa à loucura. Mesmo que, aos olhos dos outros, pareça ter dado certo, a riqueza chega apenas em pequenas doses, logo misturadas com inquietação, medo e paranoia. O que parecia luz transforma-se em sombra: amizades rompem-se, a consciência pesa e o coração percebe que não existem atalhos sem consequências.

E, ainda assim, eles insistem. Insistem porque o desejo de poder é maior do que o medo. Porque a pressa de possuir aquilo que o mundo valoriza — dinheiro, estatuto e controlo — cega para o que realmente importa. Poucos percebem que o verdadeiro tesouro não é ouro, nem notas, nem bens exibidos. O verdadeiro tesouro é a coragem de construir a própria vida, enfrentar os limites e aceitar que o caminho certo é lento, mas íntegro.

No fim, as velas apagam-se, o cheiro do incenso dissipa-se, e aqueles que buscavam fortuna às pressas percebem, tarde demais, que o preço da riqueza forçada não está nas moedas que receberam, mas naquilo que perderam pelo caminho: paz, confiança e até a si mesmos. Nem sempre é apenas o “sal” que destrói vidas juvenis; a riqueza forçada também provoca demência e paranoia. No fim, pode restar apenas um doente mental irreparável.

Esta prosa pode ajudar você a sentir o que eu sinto no meu quotidiano.

Olham para mim e sorriem, acham que tenho ouro.
Meu bolso está vazio, mas o gesto parece de luxo.
Na rua, tratam-me como dono de um tesouro.

Vestes simples, mas olhos que veem diamantes.
Tomam-me por homem de fortuna abundante,
Enquanto a minha conta implora por um instante.

Ri-se da ilusão, da aparência enganosa.
Sou pobre em moedas, mas rico em prosa.
Confundido com riqueza, minha vida é curiosa.

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